RESPOSTA A BERNARDO DE CLARAVAL
Sim –
mas onde existe uma escada tão alta
que chegue aos ombros dos gigantes?
UM APÓLOGO BAUDELAIRIANO
– De todas as personagens imaginárias,
qual, meu amigo, mais gostarias de ser?
– Não há que duvidar: o homem invisível.
– Bem te compreendo. Para espreitar
a nudez dos amantes, ouvir os comentários
dos amigos,
aprender as palavras secretas?
– Não: para não ser visto, nunca, nunca,
e aguardar, no embalo do vento,
o dia da minha morte.
THE WASTE LAND, UM SÉCULO DEPOIS
Shall I at least put my emails in order?
ECO – PARA CESARINY
Entre nós e as palavras
há mais palavras,
e entre nós e essas palavras
há mais palavras
ainda.
Quem quisesse numa fúria
saltar o abismo
iria de queda em queda,
partido em mais queda
ainda.
E se tocas as formas das coisas
tocas apenas as formas
das coisas,
que fogem na presença absorta
das coisas, mais reais
e improváveis
ainda.
Por isso haverá sempre, nos dias
desta nossa emprestada
vida,
entre nós e as palavras,
palavras,
palavras,
e mais palavras
ainda.

Pedro Eiras (Porto, 1975). Since 2001, he has published books of poetry (Inferno, Purgatório, Paraíso…), fiction (Bach, A Cura, Cartas Reencontradas de Fernando Pessoa, O Mapa do Mundo…), theater (Um Forte Cheiro a Maçã, Uma Carta a Cassandra, Um Punhado de Terra, Bela Dona…), essays (Tentações, Os Ícones de Andrei, Constelações, Língua Bífida, A Linguagem dos Artesãos…) and other genres that are harder to define. He is Professor of Portuguese Literature at the Faculty of Letters of the University of Porto.
