João Melo: Cinco Poemas

ELOGIO DE CERTAS PALAVRAS

Só pode habitar para sempre o território das palavras

quem as venerar, como se venera, por exemplo,

o ar que respiramos, o alimento que nos sacia,

o fogo que nos aquece quando temos frio,

a voz que nos afaga quando estamos sós.

Ou então: a raiva que nos sufoca,

tanto que precisamos de expulsá-la                                      

do nosso coração, o grito alimentado

por séculos e séculos de dor,

a irrevogável decisão de mudar o nosso destino.

Essas as palavras que é justo venerar.

Essas as palavras cujo sangue habitaremos

até ao fim.

PRECISAMOS DE TER ESTA CONVERSA

Sim, precisamos de ter esta conversa:

tu cantavas e dançavas,

bebias cocktails multicolores, talvez beijasses

o teu amor,

e invocavas a paz em Israel, quando homens zangados

saíram dos esgotos que tu não sabias que existiam

e levaram-te para o outro lado do muro.

Não chegaste a saber, porém,

se no outro lado da tua realidade única e extraordinária

(eleita, como te faziam acreditar)

fazia sol ou era noite,

se chovia ou não e se os jovens da tua idade

sabiam o que é uma rave:

os homens zangados,

alimentados por uma raiva de séculos,

deram-te dois tiros que ninguém ouviu

e deixaram-te ali mesmo,

nos túneis de Gaza.

Choro por ti.

Choro por ti, pois nunca mais

voltarás a dançar numa rave,

a beber cocktails com as cores do arco-íris

e a beijar o teu amor.

Choro por ti, pois certamente

o teu amor encontrará outro amor

e logo serás para ele

apenas uma lembrança

cada vez mais desvanecida,

até perder a razão de ser.

Choro por ti, pois não poderás mais

invocar a paz em Israel,

do mesmo modo como participavas, inocente e etérea,

nas paradas gay nas ruas de Tel Avive

e frequentavas as raves

mesmo ao lado do muro.

Choro por ti,

pois os homens zangados que te levaram

para o outro lado do muro

pensaram que a vingança os faria esquecer

o seu sofrimento secular. Inevitável,

mas ingénuo equívoco!

Choro por ti e por eles.

Mas tenho de dizer-te: choro

por jamais teres querido saber

como era a vida do outro lado do muro,

se os jovens conheciam os últimos hits musicais

ou bebiam cocktails de todas as cores

ou, simplesmente,

se podiam acordar todos os dias,

comer um pão, beber uma taça de leite

e ir para a escola sem medo que os estilhaços das bombas inteligentes

os impedissem de regressar.

E, sobretudo, choro por não teres podido saber

que os teus verdadeiros assassinos não foram os homens zangados

que dispararam os tiros que te mataram

nos túneis de Gaza.

O QUE FAZER COM ESTA CULPA?

Sim, há muito sabemos que a utopia

que traziam na mão quando chegaram

se esfarelou entre os seus dedos, como poeira

vã. Sabemos

também

que enquanto nós lutávamos

em seu nome

contra imperiosas

e assustadoras urgências,

eles tinham começado a encher a bolsa vazia

com que partiram um dia para a luta.

Chamávamos a tais urgências: prioridades.

E dizíamos:

tratemos primeiro destas prioridades,

para que o futuro não se extinga

antes do passado.

Estávamos tão ocupados com o futuro,

que não vimos o passado crescer

como uma sombra de dentes ocultos,

tomando conta dos nossos próprios corpos

e do nosso espírito.

Não sentimos a nossa carne apodrecer,

nem a nossa alma gelar

como um vasto inverno eterno.

Por que razão, portanto,

condenamos hoje os antigos espíritos,

que não nos avisaram que tudo aquilo que vemos

já vem desse passado que pensávamos glorioso?

A culpa é toda nossa.

Cabe-nos descobrir o que fazer com ela.

VEM

Chegaste como a água dos rios desconhecidos:

lentamente, em silêncio,

sem qualquer alarde, mas certa

que o meu coração te aguardava.

E desde esse redemoinho inicial,

espero-te todos os dias, todas as noites,

em especial naquelas como

hoje, quando um silêncio vazio e branco

preenche o meu corpo como uma doce ferida.

Ó amada, que paisagens, novas ou velhas,

os teus olhos percorrem, indiferentes,

até ao nosso próximo encontro,

que aguardo como a anhara espera pela chuva?

Vem! Sem ti não posso

navegar rumo aos infinitos horizontes

que me trouxeste com teus gestos lentos

e teus silêncios imensos e azuis

como o mar…

PENSO NA TUA PELE

Penso na tua pele onde passeia a minha língua

len       ta         men     te

Penso na abóbada das tuas nádegas claras

onde se demoram as minhas mãos

avaliando o que fazer

Penso nos teus seios, pequenos e doces,

que a minha boca trémula saboreia

com medo de perdê-los

Penso na fina penugem

por onde descem meus olhos espantados

até,

de súbito,

cegarem,

pela visão inesperada que os espera 

e

onde mergulharei daqui a pouco

e de onde emergirei,

como um louco enfurecido, mas feliz,

e onde voltarei a mergulhar

a emergir, a mergulhar

até

morrer 

João Melo was born in 1955, in Luanda (Angola), where he completed his primary and secondary studies. He studied Law in Coimbra (Portugal) and Luanda (Angola), graduated in Journalism in Niterói (Brazil), and obtained a master’s degree in Communication and Culture in Rio de Janeiro (Brazil). He is a founding member of the Angolan Writers’ Union and the Angolan Academy of Literature and Social Sciences. Similarly, he is a corresponding member of the Brazilian Academy of Letters. As a writer, he has published 25 books, including poetry, short stories, novels, and essays. In addition to Angola, his works have been published in Brazil, Cuba, Spain, the United States, Italy, Portugal, the United Kingdom, and Tunisia. Besides several other awards, he was granted the National Culture and Arts Prize of Angola in 2029 in the literature category.