ELOGIO DE CERTAS PALAVRAS
Só pode habitar para sempre o território das palavras
quem as venerar, como se venera, por exemplo,
o ar que respiramos, o alimento que nos sacia,
o fogo que nos aquece quando temos frio,
a voz que nos afaga quando estamos sós.
Ou então: a raiva que nos sufoca,
tanto que precisamos de expulsá-la
do nosso coração, o grito alimentado
por séculos e séculos de dor,
a irrevogável decisão de mudar o nosso destino.
Essas as palavras que é justo venerar.
Essas as palavras cujo sangue habitaremos
até ao fim.
PRECISAMOS DE TER ESTA CONVERSA
Sim, precisamos de ter esta conversa:
tu cantavas e dançavas,
bebias cocktails multicolores, talvez beijasses
o teu amor,
e invocavas a paz em Israel, quando homens zangados
saíram dos esgotos que tu não sabias que existiam
e levaram-te para o outro lado do muro.
Não chegaste a saber, porém,
se no outro lado da tua realidade única e extraordinária
(eleita, como te faziam acreditar)
fazia sol ou era noite,
se chovia ou não e se os jovens da tua idade
sabiam o que é uma rave:
os homens zangados,
alimentados por uma raiva de séculos,
deram-te dois tiros que ninguém ouviu
e deixaram-te ali mesmo,
nos túneis de Gaza.
Choro por ti.
Choro por ti, pois nunca mais
voltarás a dançar numa rave,
a beber cocktails com as cores do arco-íris
e a beijar o teu amor.
Choro por ti, pois certamente
o teu amor encontrará outro amor
e logo serás para ele
apenas uma lembrança
cada vez mais desvanecida,
até perder a razão de ser.
Choro por ti, pois não poderás mais
invocar a paz em Israel,
do mesmo modo como participavas, inocente e etérea,
nas paradas gay nas ruas de Tel Avive
e frequentavas as raves
mesmo ao lado do muro.
Choro por ti,
pois os homens zangados que te levaram
para o outro lado do muro
pensaram que a vingança os faria esquecer
o seu sofrimento secular. Inevitável,
mas ingénuo equívoco!
Choro por ti e por eles.
Mas tenho de dizer-te: choro
por jamais teres querido saber
como era a vida do outro lado do muro,
se os jovens conheciam os últimos hits musicais
ou bebiam cocktails de todas as cores
ou, simplesmente,
se podiam acordar todos os dias,
comer um pão, beber uma taça de leite
e ir para a escola sem medo que os estilhaços das bombas inteligentes
os impedissem de regressar.
E, sobretudo, choro por não teres podido saber
que os teus verdadeiros assassinos não foram os homens zangados
que dispararam os tiros que te mataram
nos túneis de Gaza.
O QUE FAZER COM ESTA CULPA?
Sim, há muito sabemos que a utopia
que traziam na mão quando chegaram
se esfarelou entre os seus dedos, como poeira
vã. Sabemos
também
que enquanto nós lutávamos
em seu nome
contra imperiosas
e assustadoras urgências,
eles tinham começado a encher a bolsa vazia
com que partiram um dia para a luta.
Chamávamos a tais urgências: prioridades.
E dizíamos:
tratemos primeiro destas prioridades,
para que o futuro não se extinga
antes do passado.
Estávamos tão ocupados com o futuro,
que não vimos o passado crescer
como uma sombra de dentes ocultos,
tomando conta dos nossos próprios corpos
e do nosso espírito.
Não sentimos a nossa carne apodrecer,
nem a nossa alma gelar
como um vasto inverno eterno.
Por que razão, portanto,
condenamos hoje os antigos espíritos,
que não nos avisaram que tudo aquilo que vemos
já vem desse passado que pensávamos glorioso?
A culpa é toda nossa.
Cabe-nos descobrir o que fazer com ela.
VEM
Chegaste como a água dos rios desconhecidos:
lentamente, em silêncio,
sem qualquer alarde, mas certa
que o meu coração te aguardava.
E desde esse redemoinho inicial,
espero-te todos os dias, todas as noites,
em especial naquelas como
hoje, quando um silêncio vazio e branco
preenche o meu corpo como uma doce ferida.
Ó amada, que paisagens, novas ou velhas,
os teus olhos percorrem, indiferentes,
até ao nosso próximo encontro,
que aguardo como a anhara espera pela chuva?
Vem! Sem ti não posso
navegar rumo aos infinitos horizontes
que me trouxeste com teus gestos lentos
e teus silêncios imensos e azuis
como o mar…
PENSO NA TUA PELE
Penso na tua pele onde passeia a minha língua
len ta men te
Penso na abóbada das tuas nádegas claras
onde se demoram as minhas mãos
avaliando o que fazer
Penso nos teus seios, pequenos e doces,
que a minha boca trémula saboreia
com medo de perdê-los
Penso na fina penugem
por onde descem meus olhos espantados
até,
de súbito,
cegarem,
pela visão inesperada que os espera
e
onde mergulharei daqui a pouco
e de onde emergirei,
como um louco enfurecido, mas feliz,
e onde voltarei a mergulhar
a emergir, a mergulhar
até
morrer

João Melo was born in 1955, in Luanda (Angola), where he completed his primary and secondary studies. He studied Law in Coimbra (Portugal) and Luanda (Angola), graduated in Journalism in Niterói (Brazil), and obtained a master’s degree in Communication and Culture in Rio de Janeiro (Brazil). He is a founding member of the Angolan Writers’ Union and the Angolan Academy of Literature and Social Sciences. Similarly, he is a corresponding member of the Brazilian Academy of Letters. As a writer, he has published 25 books, including poetry, short stories, novels, and essays. In addition to Angola, his works have been published in Brazil, Cuba, Spain, the United States, Italy, Portugal, the United Kingdom, and Tunisia. Besides several other awards, he was granted the National Culture and Arts Prize of Angola in 2029 in the literature category.
