1

Ilha

Alice Neto de Sousa

Somos arquipélagos dispersos,
Um cordão umbilical prolongado pelos
corpos,
              lugares,
                              mares    para lá de nós.


Mergulhas nos dias mais antigos,
Nas escamas encarpadas das águas passadas,
repetidas.


Daqui as correntes batem mais nas encostas 
Levam para lá e para cá

                                            as paisagens
retrocedidas.


Somos mãos, membros,
paredes-apertadas, vivas,
a cravar os pés na areia,
com o cabelo ao vent o
na rajada da tela a fechar. 
A tentar sair da moldura.
A tent ar
                 respirar.


Somos arquipélagos desabitados,
Somos a banda sonora de um reel.
Ayo I’m tired using technology
Preciso do toque, do teu toque, aqui, em mim
do contorno do teu olhar para me ver.


Vês-me?
A sentir, assim,
A nu,
em céu aberto.
Quem te colhe no sol?
Perguntas.
Quem te limpa a chaminé
no scroll
das redes secas em sinais
De fumo?


Se ao menos soubesses não ser de ninguém.



Somos ilhas
Vês?
Os galhos, o meu tronco a nascer?
Os pomares e espumares e sentires
O bombear por baixo da pele.
As maçãs a crescer no rosto,
na dopamina de te ver,
Vês?
A melanina que traz a noite 
As sombras
Os calcanhares a perder o sal
As palmeiras
A água pelos joelhos
Os cacos das pedras
O naufrágio das nuvens deitadas
aqui ao lado.
Porque me asfixia desde a raiz este estar só, aqui?
Como se me tivesses
                                       apagado.


Somos arquipélagos desertos,
Um membro pela metade.
Píxeis                         d i s p e r s o s
nos algoritmos da saudade.

*

2

Hora

Alice Neto de Sousa

Quando a hora muda num domingo

e o ponteiro só aponta para ti

percebo que só queria que alguém

me amasse, a uma qualquer hora,

precisamente, exatamente, assim,

de uma qualquer maneira,

porque só me amas assim,

a uma sexta-feira.

*

3

Canto

Alice Neto de Sousa

Canto de voz

Canto de rio

Canto de nós

Canto de ninho.

Poeta Alice Neto de Sousa

Alice Neto de Sousa (1993) is a poet, born in Portugal with roots in Angola.
She is the author of the poem “Março”, chosen to inaugurate the official celebrations of the 50th anniversary of the April 25th revolution, and of the poem “Poeta”, which went viral on social media in 2022 and has traveled the world.
Her poems have appeared in the newspaper Mensagem de Lisboa, and she was a regular presence on the television program “Bem-Vindos” on RTP África (from 2021 to 2023). She was also the resident poet at the Calouste Gulbenkian Foundation (2024).
In 2022, she was recognized by Bantumen as one of the one hundred most influential personalities in the Lusophone world.
Restless by nature—in both her words and her choices—she enjoys the freedom to think and to feel.