Casé Lontra Marques

Abrir o tempo tem gosto de rebelião

Abrir o tempo tem gosto de rebelião.

Quando o fôlego chega

no fundo

(seja noite seja dia mês após mês); quando

o fôlego

chega no fundo, nada melhor

que queimar

tudo de vez. Começando —

pupilas despertas

— pelos cadáveres pendurados

na

goela: os cadáveres (nunca apáticos)

das culpas dos descasos

os

cadáveres das impotências

que cultuamos

ao invés de

corromper. Ato

contracatártico — um

antitúmulo

: ávido/abrupto?

Não há atalho

tampouco refúgio o

prazer é

sempre um intruso.

Erguer também gestos que regenerem

Juntar gente, para não ruir (somente);

para — durante as diferentes etapas ou

gestações

da desintegração — erguer também

gestos

que regenerem, apesar de.

Mesmo as falas mais furtivas

são fundacionais

— mastigam muros. Enquanto (é disso

que se ressentem

os ossos. Enquanto)

bloqueios

bambeiam. Complexificando a

polinização sanguínea: dos molares

à medula. Como muitas

outras substâncias

insubmissas, o amor — sem ce(n)tro —

furta

massivamente os insumos

e mantimentos com que fabrica sua

própria

música: calejada

de contrassensos. Toda

exatidão (além de provisória)

é dúbia. Uma régua

tem

quantas vielas?

Os objetos não cabem nos dias

Os objetos não cabem nos dias,

suas bordas

deslizam pelos corredores

da

claridade — na superfície

assustada de um planeta que hoje

sabemos

ser minúsculo; os objetos

nomeiam os dias

(com

sinais estreitos, sempre);

os objetos

— transpirando — situam

os

dias em algum

lugar do desejo: aqui

onde

ninguém respira bem.

Fincar palavras no olho do tumulto

Fincar palavras no olho do tumulto (como

quem: papilas abertas

para o fôlego: manipulasse uma língua pesada

de casulos).

Tão voraz quanto a gente, vertigem

escalando

o desencanto; tão

voraz quanto a

gente:

o futuro — (d)ano após (d)ano —

chega com a boca

tomada por

larvas.

Transtornando a trincheira,

manobra (em

condição) prismática?

A chave

— caso existisse —

invocaria

novas chagas.

Soltar nós é fazer chão

Poço de certezas, fosso de incongruências.

O contrário disso: soltar nós

e fazer

chão. Estômago descalço,

a maré permeia (depois, cio

-sa, captura) os rastros

reunidos

sob a espuma — sem suprimir

ou sequer pressupor

as trilhas

acordadas pelo atrito;

soltar nós é

fazer chão. Para as plantas

dos pés

mas também para

o intestino do

labirinto.

A pertinência do despropósito

Olhos rugosos varrem o vazio à volta.

Um corpo

— afinal nunca ameno — pode ser

despido

de tudo, menos

do tempo.

Desencapando as empreiteiras do pânico

(que, a esmo, tropeçam

nos próprios

eixos).

Anzol de um zunido azul, para

não dizer

azucrinante — e largamente alheio

(largamente

alheio) à liberdade.

Ou

até mesmo ao

seu avesso.

A pertinência do despropósito —

chamo isso

de amor — sustenta o

nosso solo.

Cada passo, um

ninho (um torvelinho):

afeto é

oferta de afinco.

Colmeias na carne

Filtrado pela folhagem, o som dos insetos

somatiza a manhã

antes que as pupilas possam respingar nos primeiros

filetes de

luz — que, dejetos ou desejos,

são (eu

sei) sempre suspeitos. Placas de placenta se

recusam a resumir o dia. Em privilégio

da proliferação — incomodamente,

sim

: incomodamente nutritiva. A

palavra redesenha o sangue. Derretendo (

com ácidos

jamais escassos) a ansiedade

que a quer

estanque. — Despertar? — Um

doido, um doído

desconcerto.

Mas a vontade (maior que o medo);

a

vontade — um amuleto — é

voraz. E

perfura/implode/expurga

o desespero. Colmeias

na carne: o mundo

faz da garganta

um útero.

Casé Lontra Marques is a contemporary Brazilian poet. He was born in 1985 in Volta Redonda (Rio de Janeiro). He lives in Vitória (Espírito Santo), where he moved as a child. He has published Desde o medo já é tarde, O que se cala não nos cura, and Enquanto perder for habitar com exatidão, among other books. His poems have been featured in various literary magazines, anthologies, and platforms, both national and international.