A. Rafael da Silva


 

acontece travarmos de vez em quando

aqui e ali para pararmos de facto,

pressentirmos as coisas,

e pode acontecer ela parar também,

connosco, a flor que envolve a tristeza,

o descontentamento, o desconsolo,

como um acto isolado de comemoração

convocados todos os animais

dos dedos com os seus perfumes

em arco para o momento em que

a mão toca, remexe, carrega

enfim as pétalas começam a libertar memórias

intersticiais começos, insistências falhadas,

promessas que não foram cumpridas,

erro e avanço, sempre erro e avanço

todos nós ficamos presos neste jogo

e o planeta deixa-se apagar

à medida em que os dedos vão recolhendo, um a um,

para fechar o voo, para nos devolver à surdez

mal me quer, bem me quer

percebemos aí que vamos ansiando vagamente pelo céu

caminhando mais ou menos felizes para debaixo da terra

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From the book Ferida D’Água, Infinitesimal Agora A Partir da Terra, ARS STUDIO, 2025

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a solidão cortejou-me, ininterruptamente,

o silêncio convenceu-me, e viveu comigo

desliguei muitos sonhos com a cabeça rente à raíz

da minha própria animalidade, na escuridão multiplicada

conheci por dentro a hesitação

e nomeei um a um todos os meus abismos

mas também vivi intensamente todas as manhãs

e colhi a vontade e a audácia dos ventos

abandonei convicta a utilidade

para abraçar o que deve sobrevir-lhe sempre:

o significado

e se houve momentos em que a alegria perigosamente me rondou

eu acertei as narrativas para apreciar a fragrância do júbilo

sem perder a direcção

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From the book De ar raro feito, Infinitesimal Agora A Partir da Terra, ARS STUDIO, 2025

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invoquei o céu, os pássaros, as árvores,

travei diálogos com os muros e com os moinhos,

com os pequenos cursos de água,

com o vento, a luz do sol,

e a sombra das veredas mais estreitas

parei sempre que encontrei um bicho morto

e chorei o seu desaparecimento,

enquanto revi a sua vida repercutida

na rotina destes vales de fetos, pinheiros e eucaliptos

parei também sempre que encontrei um bicho vivo,

ou sempre que escutei qualquer sussurro

vindo de um infinitesimal agora,

imperceptível para a restante espécie

situei-me como mais um animal

no mapa configurativo dos acidentes cósmicos

apreciei a sombra e o aroma dos cedros,

dos sabugueiros e das madressilvas

rompi todas as solas e desbotei todos os linhos

com o mesmo ímpeto das enormes vagas do pacífico,

quando se põem a brincar com o casco frágil

que desloca a pele dos grandes sonhadores

desci a escada e vasculhei os destroços,

reuni um a um todos os ossos dos meus ancestrais

tornei-me o caminho e ele acolheu-me, enfim,

como se acolhe a filha que, depois de uma longa viagem,

retorna a casa

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From the book De ar raro feito, Infinitesimal Agora A Partir da Terra, ARS STUDIO, 2025

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As sombras continuarão a visitar-me

mas o meu amor as distrairá.

Cozinharei para elas a euforia

com fígado e cebola, água do rio,

granizo e mel. Afundarei o crepúsculo

nos pratos, enquanto sussurro o segredo

da loba, e deixarei que todas se sentem

em redor da mesa.

Elas soltar-me-ão o cabelo e tocarão,

ao de leve, o meu pescoço.

E da minha boca cairão flores sobre a toalha.

Vejam o meu amor aí derramado

como é infinito e grande e húmido,

uma debandada de cavalos selvagens.

Assim é o meu amor, sintam-no

tão largo como é, ofensivo, bruto.

Comam-no, digladiem-se, desçam.

E, no fim, deixem-me em paz

para eu poder adormecer docemente

depois de voltar a pentear os meus afectos.

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From the book O que acontece no peito quando diluímos o amor, Infinitesimal Agora A Partir da Terra, ARS STUDIO, 2025

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A. Rafael da Silva (Baltar, 1981) holds a Master’s degree in Comparative Literature and Culture from the University of Porto and a Bachelor’s degree in Journalism from the University of Coimbra. With over two decades of professional experience in the field of communication, her career spans radio, print media, education, editorial creation, and the strategic management of communication and creativity within international corporate environments.

Her work has been disseminated both in Portugal and abroad, through exhibitions, conferences, and dozens of published articles, news pieces, and reports in the press, as well as numerous contributions to specialized journals, websites, catalogues, and anthologies of poetry, literature, and art. Her commitment to Culture and Literature is reflected in the creation and editorial coordination of a widely circulated bimonthly Cultural Bulletin, alongside the content development, editing, and design of multiple other formats within the scope of cultural communication.

She was part of the founding team and editorial board of Revista Oficina de Poesia, published by Palimage Editores, and contributed to the pedagogical art initiative Oficina de Poesia em Belgais (Castelo Branco). She collaborated in organizing the 4th International Meeting of Poets (Coimbra), and was actively involved in the conception and technical coordination of three major commemorative events marking the centenaries of Ramalho Ortigão and Sampaio Bruno (Porto), and Monsignor Francisco Moreira das Neves (Paredes).

Her artistic practice has also been shaped by a transdisciplinary approach across photography, video, and design, with a particular emphasis on collaborative and interdisciplinary processes developed in partnership with musicians, visual artists, and other cultural agents, within interartistic projects that foster dialogue between diverse languages and geographic contexts.

In 2025, she released Infinitesimal Agora A Partir Da Terra [Collected Poetry 2002–2024], an author edition (ARS Studio), bringing together texts from the works Ferida D’Água, Telémaco, De ar raro feito, Sal pretérito, and O que acontece no peito quando diluímos o amor.