Crianças saltam,
partem crânios,
racham celas.
Alagam o chão,
tremem a terra
levantam merda.
Gatinham sem pé,
lavram o gado,
piscam regatos.
E na manhã de quarta-feira, regressam à sala,
tiram os lápis, pintam mandalas.
Ouvem ABC sem saber ACDC,
mas já reverbera
nas suas mãozinhas
as cordas.
Fazem cambalhota, cospem no chão, vomitam
comida da cantina, enojados pela falta de doce,
o excesso de fruta, a Senhora q diz: “Vá, só mais
umbo
ca
di
nho”.
Crianças saem da aula,
abraçam os pais,
entram no carro,
bem, e partem a sala.
As moscas
fazem raça
na mercearia.
E
as cegonhas
depositam-lhes
as crias
nas maçãs
da manhã
de amanhã.
poema
Coisa cabal
coisa esquecida
coisa feita
bastante perdida
coisa lixada
coisa fodida
coisa que
em parte
a um enfarte
é parecida.
Deixa para lá
deixa para cá.
Morro
para aqui.
Tragam-me
a pá.
Deixa para cá
deixa para lá
fim à fim
com cirrose
no rim.
Parto o mundo
Quebro o rego
Faço um furo
lá no fundo.
Dá de trás
Dá de frente
Diz que sim
todo contente.
Esperma aqui
Esperma ali
Tanto no olho
quanto do pente.
E tudo termina assim-assim.
Meu amor,
perdi, durante anos,
talvez um minuto,
a olhar-te o cabelo,
sossegadamente.

Guilherme Berjano Valente is a PhD candidate in the Literary Theory Program at the School of Arts and Humanities, University of Lisbon; he holds a Master’s degree from the same institution, with a thesis on the philosophy of Richard Rorty and the work of Vladimir Nabokov. His interests include literature, philosophy, critical theory, and cinema. Whenever he writes, he tries to bring these four areas together, believing that this approach may help to uncover some truth. He does not believe in frontiers. He is often irritated by trivialities. He also believes Mad Max: Fury Road is one of the greatest films ever made. Honestly, he’s just a chill guy.
