Guilherme Berjano Valente

Crianças saltam,

partem crânios,

racham celas.

            Alagam o chão,

            tremem a terra

            levantam merda.

Gatinham sem pé,

lavram o gado,

piscam regatos.

E na manhã de quarta-feira, regressam à sala,

tiram os lápis, pintam mandalas.

Ouvem ABC sem saber ACDC,

            mas já reverbera

            nas suas mãozinhas

            as cordas.

Fazem cambalhota, cospem no chão, vomitam

comida da cantina, enojados pela falta de doce,

o excesso de fruta, a Senhora q diz: “Vá, só mais

umbo

ca

di

nho”.

Crianças saem da aula,

abraçam os pais,

entram no carro,

bem, e partem a sala.

As moscas

fazem raça

na mercearia.

E

as cegonhas

depositam-lhes

as crias

nas maçãs

da manhã

de amanhã.

poema

Coisa cabal

coisa esquecida

coisa feita

bastante perdida

coisa lixada

coisa fodida

coisa que

em parte

a um enfarte

é parecida.

Deixa para lá

deixa para cá.

Morro

para aqui.

Tragam-me

a pá.

Deixa para cá

deixa para lá

fim à fim

com cirrose

no rim.

Parto o mundo

Quebro o rego

Faço um furo

lá no fundo.

Dá de trás

Dá de frente

Diz que sim

todo contente.

Esperma aqui

Esperma ali

Tanto no olho

quanto do pente.

E tudo termina assim-assim.

Meu amor,

perdi, durante anos,

talvez um minuto,

a olhar-te o cabelo,

sossegadamente.

Guilherme Berjano Valente is a PhD candidate in the Literary Theory Program at the School of Arts and Humanities, University of Lisbon; he holds a Master’s degree from the same institution, with a thesis on the philosophy of Richard Rorty and the work of Vladimir Nabokov. His interests include literature, philosophy, critical theory, and cinema. Whenever he writes, he tries to bring these four areas together, believing that this approach may help to uncover some truth. He does not believe in frontiers. He is often irritated by trivialities. He also believes Mad Max: Fury Road is one of the greatest films ever made. Honestly, he’s just a chill guy.