Farol

Não fujas do poema.

Preciso de ti para que ​ele respire.

Para que não fique está coisa invertebrada, piegas e manhosa, cheia de pássaros no cabelo

e ramos de Flores murchas atrás das Costas.

Deixa-te estar aí nesse Lugar.

Fazes falta ao poema.

És t u quem lhe concede uma dimensão soturna que o impede de ser Todo monotonamente luminoso.

Não te  aproximes excessivamente.

O poema pede distância.

Se for escrito directamente na pele será uma tatuagem e não um poema

​e eu não TE quero assim tanto nem para sempre.

A ausência provoca aquilo que chamam saudade e dizem que é coisa para cair muito bem num poema.

Não fales comigo.

A tua voz não cabe no meu poema.

Podes dar-me uma perna, um torso, um sexo, um braço.

Mas não TE atrevas a estilhaçar aquilo que inventei​

A tua voz traria uma realidade insuportável

Permanece aí, na sombra.

É o ângulo que mais convém ​ao poema.

(Inédito)

Rita Tormenta 2024

– Não é possível permanecer em silêncio. Temos de zangar-nos e bem alto! -Disse-lhe.

– Sim, sim.. Mas… – respondeu-me, três tons abaixo do meu.

Avancei como um carro sem travões, estava capaz de lhe bater.

 – Até TU? Já te rendeste à indiferença?

 Recuso-me a acreditar.

 Vamos sair! Há uma manifestação daqui a bocado, temos absolutamente que ir.

(Tirou os sapatos e sentou-se ostensivamente no sofá.)

– Não vou sair daqui – disse-me.

-É incrível, afinal és cobardolas, tens medo de perder o quê?

A minha ira era tamanha que estive a milímetros de a confrontar fisicamente.

Com a cara a menos de um palmo da dela, vociferei:

– És uma merda, não te reconheço, desistente, acomodada…

Acho que deixei de conseguir amar-te.

Já viste o que SE passa? Já viste?.

(Agarrou-me os dois pulsos com força)

– Já vi. Vejo e não consigo desver.

Vi e não tenho como derrotar a extrema-direita, tirar os tiranos do poder, destituir assassinos  e os governos radicais , reverter o poder económico das big corporates, acabar com os mercadores de homens, impedir o avanço das águas, resgatar as espécies em extinção, erradicar a miséria que grita nas ruas de Dharavi,  secar o ódio nos olhos dos homens, nem conter a lava dos vulcões.

Não consigo, não consigo, não consigo.

Queres que me manifeste?

Queres mesmo que vá agitar bandeirinhas e entoar cânticos ?

Eu manifesto-me, se TU assim o desejas, e em nome de todo o amor que vivemos, eu manifesto-me.

Serei o manifesto desta impotência que me seca as veias.

(Abriu as janelas de par em par.

Julguei que fosse gritar )

Olhou-me,  e sem que tivesse tido tempo de a impedir, saltou.

O seu corpo um manifesto contra a calçada.

2025 inédito

Se pudesse enviar-te o cheiro a pão acabado de fazer, saberias que o amor é isto.

Amanhecer, amassar, levedar, cozer e saborear.

Ignorámos os sinais.

A frase do Herberto Hélder dispara na minha cabeça com a presença de uma luz de néon vinda da rua, numa noite de insónia, num pequeno apartamento em Nova York.

SE EU QUISESSE ENLOUQUECIA

Ontem acordei a meio de um pesadelo, hoje acordei dentro de um pesadelo, amanhã deixo de sonhar.

A casa está serena, a rua tranquila, a cidade silenciosa, o mundo em suspenso.

Na varanda sobre o rio, as sardinheiras ganharam bicho, demorei algumas semanas até aceitar o inevitável, as sardinheiras não tinham salvação, adiei, ontem deitei tudo for a, terra e tudo.

Preciso com urgência de novas sardinheiras, sei da aparente futilidade desta urgência.

A beleza, como a arte, são tão mais necessárias quanto mais os tempos se apresentam instáveis e assustadores.

O piano de Joep Beving invade a casa.

O cheiro a pão domestica as raivas.

Se pudesse enviar-te o cheiro a pão acabado de fazer, saberias que o amor é isto.

Amanhecer, amassar, levedar, cozer e saborear.

In “Centrifugar angústias a 1600rpm” 2022 Safe Space

A cama permanece desfeita, a pesada vida de Roth e a leveza da gata enroscada na saia de seda despida na noite anterior, um desleixo premeditado.

Sou um manto de alcatrão fervente sobre uma montanha. Sou aquele velho ford, ainda sem ar condicionado, a cruzar a meseta castelhana numa asfixiante tarde estival.

Uma viagem entre Lisboa e Madrid, onde morri várias vezes, mortes pequenas e inconsequentes.

A pele não acompanha a alma.

Desgrenhada, numa linhagem literária de desalinhos.

Sigo, carregando pedras nos bolsos e amantes da Indochina.

Preciso para mim das horas todas, para as desperdiçar neste estéril exercício de garimpeira de vocábulos.

Cada pronome pessoal possessivo acende a ira e acelera a fuga.

As horas não chegam para me dissecar convenientemente, chego apressada, a desatenção deixa visíveis as vísceras.

In “Jugular Exposta” 2025 The Poets and Dragons Society.

Rita Tormenta
Was born in Porto (Portugal) in 1970. She grew up in Lisbon and currently lives in Almada. With a higher academic background in Theatre, she has been a teacher, innkeeper, waitress, project coordinator, digital street sweeper, actress, and puppeteer.

She published her first book, Centrifugar angústias a 1600rpm (Spin Anguish at 1600rpm), in 2022, followed by O pequeníssimo livro de TI (The Very Tiny Book of IT), in 2023.

At present, she runs the monthly gathering “3 às 4as” (“Three on Wednesdays”) with Luís Filipe Sarmento, in Almada; co-organizes, with Elisa Scarpa, the annual event AQUI VAI LIVRE, a literal and collective book release; and serves as coordinator of the 2nd Ibero-American Literature Night in Lisbon (OEI), curated by Lauren Mendinueta.