RIO
Me ancoraste
exactamente aqui
onde te rio.
Ri comigo
meu amor,
vê
como se amplia
o cais.
HÚMUS
Na
paisagem
macua da infância
um beijo
vagaroso
encaracola a memória.
MEU POEMA IMPOSSÍVEL
Meu corpo de flores silvestres
deitas-te sobre este poema
e comes-me
onde mais me dói
escrever.
Nas agruras do meu sangue
mutilados os meus dedos
que tamborilam o eco da noite
e bates-me com as tuas
lágrimas acesas
no mais fundo do teu brilho,
aí onde já não sonho.
Meu poema impossível
acordas e pé ante pé
atravessas-me o coração
ou lajeia-lo de saudades,
e frutos silvestres.
Acordas e vais sozinho e comigo
onde te caiem bagos dos ramos,
doces e olorosos, se esmagados
ou mastigados pela tristeza
quando é impossível
saborear a loucura
no pomo dos dedos, lambidos
um a um, avidamente.
É quando o mundo que gira
deixa de girar
e me estaca nas pupilas
paralisada,
soluçante,
e uma lágrima de sangue desce
paulatinamente
pela espinha
do meu medo.
Espessa.
Devagar.
Dentro de um grito mudo
e num murmúrio de nihil.
Ah, o susto de estar presa
num poema sem rosto
e mesmo com corpo
sem alma
todo ele mandíbulas.
Meu corpo impossível
não me comas inteiro
o possível poema
que me subsiste
deixa
que deságüe,
que no abrigo
os seus pedaços
façam sentido.
Porque aí
onde mais me dói escrever
reside a alma.
MUPIPI
Na tua sombra se escrevem
Lentamente as estrelas
Asa , asa ternurando com o vento
A palavra brilha ao silêncio
Luminosa como o futuro te entra pelas asas
E a memória tem um ninho
Crescendo entre crepúsculos
Num murmúrio harmónico
Como te veste a primavera em pleno outono
Na manha em que os tambores
gritam com o milagre do Zambeze
E olhas esguio a tua volta
O mundo inteiro que tens dentro.
UM PIANO, MINHA LOUCURA E EU
Um piano
cogita no silêncio das noites,
arrepia em notas soltas
a desenfreada falésia do desejo.
Ah, estares-me ausente!
Reverbera o saxofone, o teu,
e eu galgando o tempo na lua,
ah amor, cruzo savanas, trópicos e desertos.
E tu comigo, cá dentro, lá fora
amando-me na medida do ritmo
de um jazz cálido e frenético.
Abraço do Índico, o piano
atravessa as fronteiras que nos distam,
recria o sopro do teu sax
no meu corpo.
A boca, as mãos, os teus dentes
no meu lóbulo, o piano
é todo o futuro por vir,
uma pintura quieta como um pomo,
o pêssego que adoça
o som que há no silêncio:
Estrelas no chão
deitadas de ventre
Rio incestuoso
onde a noite
tem caroço
Incêndios
Não me salves,
selva-me!
SE O MEU PESCADOR PESCASSE
Se o meu pescador me pescasse
pelo arpão me agarrasse os versos
um a um, sem pressa
a melhor palavra do mar…
Mas em que lugar da asa
a palavra poderia ser mais bela?
Com que cheiro? Com que sabor?
Onde seria o lugar do sol
Com que cor? Com que brilho?
E sei que hei-de escolher
depressa mas devagar
a palavra mais carnuda para comer
E vou comer intensamente
Com toda força dos meus (d)entes
na ponta dos dedos
as palavras que não me calo
E um peixe com asas
Há-de nascer
E há-de pescar-me no alto
o pescador
Espero

Tânia Tomé was born in Maputo. She is a multifaceted person: writer, poet, entrepreneur, economist, actress, activist, and president of Womenice, an organization dedicated to empowering young women. She is also the curator of the “Womenice Leadership” conference. Her books cover novels, poetry, personal development, and philosophy, with notable works such as Succenergy, Conversations with the Shadow, Melanin: A Dreamer from the Favela of the Fifth Scream, Catch the Sun Behind Me, among others. Her work is studied by doctoral and master’s students in the Postgraduate Program in Letters at the Federal University of Rio de Janeiro – Brazil. It is also included in the Teacher’s Manual in the Amazon, and it is compulsory reading in schools and universities for their exams.
She edited the first poetry DVD from the Portuguese-speaking African countries (PALOP) and is the founder of the Showesia Education and Culture Project, a performance combining poetry, singing, dance, and theater. Her work has been translated into several languages and is featured in various national and international anthologies. With numerous awards and widespread recognition, Tânia Tomé is one of the most prominent writers and poets in contemporary African poetry. She has received the Academic Prize from the President of Portugal and has been recognized as one of the 100 Most Influential People in the World by MIPAD New York, among other distinctions.
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