Farol #6: A Poesia Aumenta o Mundo

(Introdução)

No início de A Condição Humana, Hannah Arendt afirmava «Os homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo.» De facto, este Homem, no singular e em maiúscula, pode parecer-nos demasiado abstrato e vazio, algo que não podemos ver de frente nem sentir o pulso. Fernando Pessoa parecia advertir já para a artificialidade dessa mesma abstração genérica e desvitalizada: «Falaram-me os homens em humanidade, / Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade. / Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si. / Cada um separado do outro por um espaço sem homens.» A humanidade assim concebida é muito diferente do ser humano de carne e osso, composto de sangue, músculos, ossos e sonhos, desses homens plurais, «assombrosamente diferentes entre si», que um conceito unitário e maiúsculo pode ocultar e esquecer. Em 1944, em pleno epicentro de um genocídio, o filósofo Ludwig Wittgenstein escrevia: «Nenhum clamor de tormento pode ser maior do que o clamor de um homem. Ou, mais uma vez, nenhum tormento pode ser maior do que aquilo que um único ser humano pode sofrer. O planeta inteiro não pode sofrer tormento maior do que uma única alma.» Pensar a dor ou a condição apenas em termos coletivos pode fazer-nos esquecer a singularidade e a diferença. Do mesmo modo, o esvaziamento de sentido que a extensão numérica frequentemente traz consigo pode afastar-nos do essencial: o percurso irrepetível de um único ser sobre a Terra.

Mas esta Humanidade pode também encerrar um outro sentido, entre tantos possíveis: o da potencialidade de um amor maior e em contínua expansão. A poesia enquanto revitalização, regeneração e ampliação do mundo abre um espaço de empatia que contém em si os contrassensos e os opostos. A ordem que ela inaugura é, por isso mesmo, mais complexa e mais plural. Abre o nosso olhar para esses «homens assombrosamente diferentes entre si», mas também para aquilo que partilham. O seu eu confunde-se frequentemente com um nós. Quando Mutimati Barnabé João escreve: «Eu o povo moçambicano vou conhecer todas as minhas forças», amplia poeticamente o nosso mundo conhecido. É então um começo sem volta atrás. A poesia aumenta, regenera e revitaliza o mundo — o nosso mundo —, ao qual gosta de estar atenta  e do qual se torna indissociável. Por amor ao mundo o mundo todo. Num outro sentido, a palavra humanidade pode significar empatia, intensidade e vitalidade, correspondência com aquilo que há de mais divino e de mais animal, de mais humano e de mais central em nós, aquilo que o humanista italiano Pico della Mirandola considerava o único milagre. Para os gregos antigos, humanidade era um verbo, um tornar-se humano, mais do que um estado adquirido. Seja essa humanidade aquilo que for na sua potência solar, animal e divina é a ela que a poesia nos ajuda a corresponder, com maior sinceridade e entrega, a poesia aumenta o mundo.

Nuno Brito, Cidade do México, 7 de Julho de 2026.

Farol #6

A poesia aumenta o mundo

Andreia Tavares de Sousa

David Bene

Erick Morgan Morales

Federica Ortiz

Feio

Madelín Zeida Pupo

Maria Giulia Pinheiro

Ricardo Choreño

Rober Diaz

Ronaldo Cagiano

Rui Marques

Silvana Guimarães

Zé Franco