Silvana Guimarães

colagem

bebe-me

porque a carne cede e

transluzo

toca-me

porque o pulso erra e

recomeço

some-me

porque o rastro grita e

desando

ouve-me

porque o silêncio morde e

desvelo

guarda-me

porque o tempo afoga e

desnasço

sofre-me

porque a tentação arruína e

reincido

sopra-me

porque a solidão amordaça e

amargo

ama-me

porque o ar se parte e

desminto


bohemian rhapsody

quando você ouvir fred mercury

siga em frente: siga em frente

sua voz é trovão e seda

é ferida: foda: festa

o som é ácido [let me go]

o timbre desfaz o ar [never]

a pele esgoela em falsete

a alma explode em purpurina

notas escorrem pelas paredes

lentas: violetas: luminosas

átomos dançam de salto alto

a gravidade desaprende o corpo

tudo jorra no mesmo compasso:

mama ooh em loop infinito

oh mamma mia mamma mia

mamma mia never let me go

o rumor ferve dentro da pele

ele canta e você entende:

a verdade é glam

e deus usa bigode

trapézio

a manhã nasce num gesto escuro

quando a espera se revela

inútil como um útero

que não sangra

o corpo incauto põe-se

de tocaia: aguarda outra deixa

para se jogar

e ignora o calafrio

esse arrepio entre o umbigo e os seios

essa dor terebrante no monte de vênus

anunciam

todo amor dilacera

estouvada

olho as coisas como se me despedisse delas

depois de velha, dei pra colecionar tragédias

[o desvario]

um beija-flor louco pela minha orquídea

quebrou o bico no vidro da janela, eu vi

[o tombo]

o cão morto foi chutado à exaustão pela

criançada notável do bairro, eu percebi

[a cadência]

o pinguço escorregou enquanto tastaviava

& cantava adíos, mariquita linda, eu senti

[a soledade]

vem: vamos dividir as sombras — irmanamente —

encher de flores & musgos as jaulas do meu coração

estiagem

talvez fosse bom amar um homem assim:

de olhos longos & embriagados como raízes

do meu corpo de vinho e assombrações

como se a vida fosse lógica & lhana

como estrelas que brilham sem céu

como a sede ou a fome insondável ou

a primeira palavra depois do silêncio

talvez fosse bom esquecer um homem assim

abafar desejos cortar carícias convertê-las

na cicatriz que jura: amor é rio sem margens

inventário das coisas que ficaram

uma xícara lascada na borda

um travesseiro enjambrado

perfume que ainda resiste na gola

não houve tragédia

só o esvaziamento lento das conversas:

[um dia o bom dia saiu e não voltou]

aprendi a dormir no meio da cama

ele aprendeu a cozinhar para um

fazemos a feira em horas desiguais

de vez em quando vem um pensamento:

e me atravessa como vento por janela aberta

nem dói [só bagunça o ar por um instante]

então tudo volta ao seu lugar:

a xícara

a calma

o silêncio

Silvana Guimarães is a writer born in Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil, where she currently lives. She holds a degree in Social Sciences from the Federal University of Minas Gerais. Before dedicating herself to literary work, she was a pianist and a specialist in public transportation.

She is the editor of Germina – Revista de Literatura & Arte (Germina: Literature & Art Magazine) and of the literary collective Escritoras Suicidas (Suicidal Women Writers). She has edited and revised numerous poetry books by other authors, most notably Poesia Reunida [1966–2009] (Collected Poems [1966–2009]) by Maria do Carmo Ferreira, co-edited with Fabrício Marques (Martelo Casa Editorial, Goiânia, 2024), which received the 2025 Minas Gerais Academy of Letters Award.

Her poetry has appeared in several Brazilian and international anthologies. O Corpo Inútil (The Useless Body), currently forthcoming, is her first poetry collection.