colagem
bebe-me
porque a carne cede e
transluzo
toca-me
porque o pulso erra e
recomeço
some-me
porque o rastro grita e
desando
ouve-me
porque o silêncio morde e
desvelo
guarda-me
porque o tempo afoga e
desnasço
sofre-me
porque a tentação arruína e
reincido
sopra-me
porque a solidão amordaça e
amargo
ama-me
porque o ar se parte e
desminto
bohemian rhapsody
quando você ouvir fred mercury
siga em frente: siga em frente
sua voz é trovão e seda
é ferida: foda: festa
o som é ácido [let me go]
o timbre desfaz o ar [never]
a pele esgoela em falsete
a alma explode em purpurina
notas escorrem pelas paredes
lentas: violetas: luminosas
átomos dançam de salto alto
a gravidade desaprende o corpo
tudo jorra no mesmo compasso:
mama ooh em loop infinito
oh mamma mia mamma mia
mamma mia never let me go
o rumor ferve dentro da pele
ele canta e você entende:
a verdade é glam
e deus usa bigode
trapézio
a manhã nasce num gesto escuro
quando a espera se revela
inútil como um útero
que não sangra
o corpo incauto põe-se
de tocaia: aguarda outra deixa
para se jogar
e ignora o calafrio
esse arrepio entre o umbigo e os seios
essa dor terebrante no monte de vênus
anunciam
todo amor dilacera
estouvada
olho as coisas como se me despedisse delas
depois de velha, dei pra colecionar tragédias
[o desvario]
um beija-flor louco pela minha orquídea
quebrou o bico no vidro da janela, eu vi
[o tombo]
o cão morto foi chutado à exaustão pela
criançada notável do bairro, eu percebi
[a cadência]
o pinguço escorregou enquanto tastaviava
& cantava adíos, mariquita linda, eu senti
[a soledade]
vem: vamos dividir as sombras — irmanamente —
encher de flores & musgos as jaulas do meu coração
estiagem
talvez fosse bom amar um homem assim:
de olhos longos & embriagados como raízes
do meu corpo de vinho e assombrações
como se a vida fosse lógica & lhana
como estrelas que brilham sem céu
como a sede ou a fome insondável ou
a primeira palavra depois do silêncio
talvez fosse bom esquecer um homem assim
abafar desejos cortar carícias convertê-las
na cicatriz que jura: amor é rio sem margens
inventário das coisas que ficaram
uma xícara lascada na borda
um travesseiro enjambrado
perfume que ainda resiste na gola
não houve tragédia
só o esvaziamento lento das conversas:
[um dia o bom dia saiu e não voltou]
aprendi a dormir no meio da cama
ele aprendeu a cozinhar para um
fazemos a feira em horas desiguais
de vez em quando vem um pensamento:
e me atravessa como vento por janela aberta
nem dói [só bagunça o ar por um instante]
então tudo volta ao seu lugar:
a xícara
a calma
o silêncio

Silvana Guimarães is a writer born in Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil, where she currently lives. She holds a degree in Social Sciences from the Federal University of Minas Gerais. Before dedicating herself to literary work, she was a pianist and a specialist in public transportation.
She is the editor of Germina – Revista de Literatura & Arte (Germina: Literature & Art Magazine) and of the literary collective Escritoras Suicidas (Suicidal Women Writers). She has edited and revised numerous poetry books by other authors, most notably Poesia Reunida [1966–2009] (Collected Poems [1966–2009]) by Maria do Carmo Ferreira, co-edited with Fabrício Marques (Martelo Casa Editorial, Goiânia, 2024), which received the 2025 Minas Gerais Academy of Letters Award.
Her poetry has appeared in several Brazilian and international anthologies. O Corpo Inútil (The Useless Body), currently forthcoming, is her first poetry collection.
