João Bosco da Silva

ALVA E KOMOREBI

Subitamente

te tornas

em dor e eternidade.

Orvalho em folhas

de salgueiro –

a morte dos poetas.

Também morre

quem escreve

haikus.

À distância do prato

e do copo

o mar e a infância.

Ouço um pica-pau

a neve escorre

enfim chegaste.

Como o que parte

Alva chega

com a Primavera.

Só na ilusão

se tem espaço

para a eternidade.

Hepáticas emergem

do húmus –

afinal Primavera.

Revela-se finalmente

o húmus –

outono novamente?

Estrangeiras como eu

reconheço no seu canto

o meu berço.

Saí para escrever

ao sol –

logo escureceu.

Ainda onde ficou

a pinha

que não vi cair.

De mão dada

crescem juntos

a idade e a solidão.

Quantas mais linhas

na cara

menos os sorrisos.

Ao sol espero

números redondos –

antes virá o verão.

Neste mundo barulhento

serei eu invisível

se me mantiver em silêncio?

Que mãos terão

transplantado

as flores deste jardim?

Debaixo de uma árvore nua

espero ao sol

a sua sombra.

O último sorriso

que te vi –

unha postiça no chão.

Olhando as cerejas

não sei se durmo –

longa foi a noite.

Não te apresses

vai devagar

ò primavera.

Como estrelas

num céu verde

os dentes-de-leão.

Não fosse ao lado

a artéria da cidade

e seria rei do silêncio.

Até estas estrangeiras

fragas de granito

conhecem os meus pés.

Mais abaixo

o bloco arrancado à fraga

parou.

Sob os pés

as agulhas do pinheiro –

aromas primordiais.

Tanto acaricia a fraga

como o pinheiro –

morna brisa primaveril.

O cheiro do pôr-do-sol

no fresco musgo –

dourado momento.

Contra o meu peito

um outro mundo

que começa.

Contra o meu peito dorme

um outro mundo

que começa.

Ambos inocentes

como a pinha que cai –

sesta entre pinheiros.

Sou eu mais

que a flor torcida

com o peso da abelha?

Visita-nos um esquilo

comungamos os três

do sol e do silêncio.

Como a verdade pura

dança sem palavras

a luz através dos pinheiros.

ALVA

Que sei eu filha, das linhas que unem as estrelas,

Só tenho a certeza dos teus olhos

E do abismo que um futuro encerra,

A vida é isto apenas e chega, um choro, um sorriso,

Tudo entre a primeira e a última vez de tudo,

Que os sonhos te levem sempre à primavera

E as flores te sejam testemunhas

Da pequena luz que te pulsa no peito.

KOMOREBI

Aspiras à ascensão do silêncio bruto,

Abrupta a certeza do impalpável momento,

Mais lento que um suspiro no desmoronamento

Da partida, o toque último das pupilas

No deslocamento dos astros, todas as ilusões

O vento que move as distâncias imperceptíveis,

Derrotas-te a cada desejo,

Mas nem o impacto violento de um definitivo olhar

Consegue tolher irremediavelmente

Uma eternidade humana.

Primeira Visita a Museu*

para quê festas e grinaldas e canções e vinho

se os corpos envelhecem como as coisas

Ruy Belo

Vês estas pedras brancas, meu amor,

Estes contornos humanos, uma quase carne

Fria e estática, as mãos que a esculpiram,

Há mais de dois mil anos que não são mãos,

O mundo era outro, a vida a mesma coisa,

Muitas vidas surgiram e passaram,

Que pedras tocará o teu corpo pequeno,

Que formas lhes darás, o que ficará de ti nelas,

Como nestas pedras, pelas quais tantas vidas

Passaram, enquanto estes corpos,

A mesma pele suave, um membro ou mais

A menos, a palidez que tomou conta da memória

E os teus olhos enormes olhando o seu silêncio,

Como se percebesses o mistério criador,

A ironia da vida que cria para a eternidade

E que não passa de um momento reflectido

Na forma de umas pedras tocadas pela paixão

De uma carne não muito diferente da tua.

* Ouvir “Padre Ramirez” de Ennio Morricone ao ler

TUDO

Perder, ao teu lado, o desalinho involuntário

Dos dias, aprender novas preces, primordiais,

Fundamentais como o balanço dos pulmões

Vida fora, tudo pende num sorriso ou na dança

De uma folha inocente do Outono que se aproxima,

Crescerá o silêncio, um dia, absoluto, é certo,

Mas agora tudo balança num equilíbrio delicado,

Frágil como a luz da manhã no sono da pele quase desperta.

João Bosco da Silva

João Bosco da Silva was born in Bragança (1985). He spent most of his childhood and adolescence in Torre de Dona Chama. He studied in Porto. He lives in Finland.

Poetry books: Os Poemas de Ninguém (Atelier, 2009), Disse-me António Montes (Mosaico de Palavras, 2010), Bater Palmas E Sete Palmos De Terra Nos Olhos (Mosaico de Palavras, 2011), Saber Esperar Pelo Vazio (Mosaico de Palavras, 2012), Destilações (Não Edições, 2014), Trepanação de Jerónimo Bosch (Mariposa Azual, 2015), Teoria da Perdição Unificada (Enfermaria 6, 2017), Um Tropeço nos Dias Quentes (Enfermaria 6, 2019).