ENSAIO SOBRE O INFERNO 1


Que grande ilusão! Que grande inutilidade! Nada faz sentido!
ECLESIASTES 1:2

Com quantas caras se faz um inferno?
Pergunto, minha razão. O inferno é manso. É ríspido. Gente viva. Gente morta. Carne fresca. Carne podre. Charuto cubano. Everest cigarette. Mulher coberta. Mulher nua.
Maheu. Nipa. Ford Ranger. Carroça de boi. Papel limpo. Nádega. Quase nada.
Com quantas coroas se faz um inferno?
Pergunto e não procuro respostas. Responde-se para convencer. Para ganhar respeito.
Para elevar a raça. A cor. A luta. Para dar sentido ao fracasso. Ao sucesso.
Com quantas moedas se faz um inferno?
Eu diria quatro.
Apenas para dar uma visão extradimensional à provocação. O resto é tudo mesma coisa. Boca aberta. Pronta para trocar palavras por grãos de arroz. E quem compraria a
areia?
Eu, Cohéllet.
A pedra de quatro olhos. Desconheço a diferença entre o grão de areia e o de arroz.
Ambos são bem sorteados. Uns eternos, outros efêmeros. Estou equivocado, confesso.
A eternidade do tempo parte e desagua na pupila de quem a procura. A pedra é tão
duradoura quanto uma amiba. Uma flor. Uma foda. Um roubo no aparelho do Estado.
Com quantos cofres se faz um inferno?
Todos somos eternos ao fim do dia. Todos somos um morto na manhã aberta. Pensar
nisso tira a graça da surpresa. Traz angústias e cânceres.
Talvez seja aqui onde reside a diferença.
Penso sempre na morte. E quanto a ti, nalgumas vezes perdes-te no sexo, na
gargalhada, no abraço e no sono.
Ndambi, eu não durmo há séculos.

1 In Câncer. Moçambique: Cavalo do Mar, 2023; Portugal: Editora Exclamação, 2023

Conheci os teus deuses. Apontei os teus pais com o dedo indicador. Falo-te, num bom
português, através deste papel branco. Venci o tempo. O medo. Domestiquei o vento
do oriente. Varre a calçada do trono que te mostrarei nos próximos tempos.
Com quantas agulhas se tricota um inferno?
Há um cadáver linguarudo na palma da criança. Tresanda a horrores, mas continua
feliz. Vivo na planície de Marte e durmo no cume do Monte da Lua, disse-me o osso.
Chegados aqui, fulano, resta-me apenas dizer-te o seguinte: pega na pá e abra a tua
cova. Escolha a tua rosa favorita.
Sonhar é morrer.

CAIU A NOITE DEPOIS DO ASSOBIO 2


The boy moved closer to the edge of the cremation
pit and stood there silently. Men in mask took
the baby from his back and placed it on the fire.
JOE O’DONNELL

I


A noite das coisas é céu sem candelabros
e a inocência pousa
e levanta as asas ignotas
sóbria a cor do medo das borboletas
É no voo que reside a sorte da humanidade
o cortejo de rodas vazias
e o único fio de cabelo branco
atirada a fotografia na orla dos caminhos
acena-me o teu retrato e o abismo, madame

II


Eis que caiu a noite depois do assobio
o pé com tungíase despiu-se do chinelo
e do sujar o corpo, madame
O óleo nos mamilos não esvaziou o oriente
e eis a corda de jazz nos ouvidos secos
ancorada à orla do tempo perdido
Atravessa o fosso vazio porque
te espera, na outra margem, o silêncio da libélula
Fulano, no teu trono, abre o frasco de formol

os olhos ficam, madame baila-se cego no antro da labareda


III
Homogénea a compaixão da folha alaranjada
Abraço o meu assassino na cinza
o perdão de nenúfares
na amnésia da terra que foi sangue
So, HOLD ON TIGHT, MARIE HOLD ON
o ente adormece, faz a boca amanhecer
como a árvore em pó
Caída a ermo
como asilo
ou a flor recriada

IV
A raiz dos cabelos é verde
e o vento entoa
esconde o depois
a espera pelo novo cansa porque é eterna
Entre mim e deus, quem mais certo das coisas está?
tu, Mayasa sabes que a espera vale nada
retirar-se, é necessário, do brio para ser plena
não apontes o dedo, com desprezo, ao profeta, Miqdad
a restauração do destino reside nas mãos do fogo
V
Vem, madame percorre descalça o campo adusto
Tem cuidado com tudo algumas raízes resistiram ao fogo

são flechas apontadas para o firmamento
Olha, ali está a plebe napeira
salvou-se porque se esqueceu de abandonar o covil
não gastes a saliva com ela, madame a sede virá
e nada bastará para salvar os justos
Ouve as vozes do banquete
são os seres incinerados com taças de vinho nas mãos

VI
Este pó irrealizado do profeta pressagiou
o fim das coisas e ninguém ouviu
Nada disse esta cinza
pertence ao maior poeta de uma geração
Ah poesia, olha o que te tornaste depois de tudo
A chuva não cai tão já, madame o céu está longe
Afastou-se do medo e do sono
como o que trazes nas algibeiras

2 In O Vazio de Um Céu sem Hinos. Portugal: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2023

MANTO 3

Mão invisível
apaga a memória
a teia e
o inseto longe da vontade de partir
Eis que estamos no fim das coisas
e corvos ateus levantam as macas vazias
clamam por misericórdia
enquanto se alimentam do próprio papo
Levantam as saias da poeira e
a crosta levita ao encontro do céu
Eis o vazio concreto
a concha aberta do mar, madame
e o poema erguido das coisas
como o grão de areia
encerra a espiral do universo

3 In O Vazio de Um Céu sem Hinos. Portugal: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2023

David Bene was born in the city of Manica, Mozambique, in 1993. A poet and prose writer, he regularly publishes in newspapers and literary magazines in Mozambique, Brazil, Portugal, Galicia, and Japan. His work has been translated into Japanese and Dutch.

He is the author of Objecto Oblíquo (Oblique Object, co-authored with Mélio Tinga; OitentaNoventa, 2022), Câncer (Cancer; Cavalo do Mar, Mozambique; Editora Exclamação, Portugal, 2023), and O Vazio de Um Céu sem Hinos (The Void of a Sky Without Hymns; Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2023), a work currently included in Portugal’s National Reading Plan.

He was awarded the Imprensa Nacional/Vasco Graça Moura Prize in 2021 and received an Honourable Mention in the Natália Correia Prize in 2025 for his manuscript Assim Morre a Eternidade (Thus Eternity Dies), which is currently forthcoming.

David Bene holds a bachelor’s degree in Geology from Eduardo Mondlane University (Mozambique), a master’s degree in Economic Geology from Akita University (Japan), and a Ph.D. in Mineral Resources Engineering from Kyushu University (Japan).

He is the co-founder of the literary magazine OitentaNoventa and currently directs a mineral exploration company, where he manages projects involving the prospecting, exploration, and evaluation of mineral deposits in Mozambique.