Erick Morgan Morales

As Mudas Danças

Quantas vezes sofre o homem das metamorfoses turbulentas?

Cada vez que cruza o umbral entre sonhos e aparências deixa trás da porta um rosto
atordoado. A imitação dum homem de barro, fragmentos de ideias, estupor e farrapos.
E entre os papos, as vozes, boatos, sombras vacilantes e grandes letargos, passa de

mão o encargo inconsciente do medo amargo.

Mas, sabe Deus ou sábio algum das danças, as mudas danças entre o “Eu” e o

“Outro”?

Tal é o caso. Compasso comum, balanço em quatro quartos. O silêncio desfila pelos
vãos confins e as sombras difusas se somem nas passagens primigênias da alumia

cruenta e o pranto afogado. Eis a quebra da ilusão primeira.

Uma fachada em declínio. Transitório charme-chic-glamour nauseabundo. Tão logo os
olhos afastam a vista, um suspiro de alívio, as vezes um tremor alvoroçado. Ecdise

momentánea, revelação do gesto afundado.

Velório vagabundo (A balada do São João-ninguém)


Trilha sonora
dos ossos ralados
Rítmica batida
das carruagens
nas vias

A marcha mortuária
enfia pro caixão
Ouve-se terço vagabundo,
aflita liturgia

E a chuva que a terra humedece
e as preces que viram maranhão

Barraco-papelão
Sonho deitado na rua
Gente não mora no tempo
presente nem no passado
Vivem no mundo afundado,
fazem-no com tempo alugado

Bebendo da água imunda,
comendo apenas as migalhas
do pão

Pranto é voz miúda
e o corpo-colheita
sua sangue enxuga.

Sua dor virou paixão

Santo homem escravo,
São João-ninguém
Santa mulher abatida,
Maria-vadia
Sua fome não é macia,
nem seu nojo nem sua agonia

Filhos da ocorrência
que nas cidades transitam
É a poeira que lhes some;
a treva que lhes cobre

Lama sobre corpo mole.
É menino, filho de pai enlutado
É garota, filha de mãe assolada
É (São) João-ninguém, o trucidado

Bop (Moriarty)

Versos inconexos
Palabras que mañana
No significarán nada
Chasquidos de ramas
Que acompañan tus pasos
Persiguiendo las horas
Tres golpes al piso
.
.
.
Amigos y estatuas
Preguntan lo mismo
Repite el eco la bulla
Del ronroneo
De rieles de tren

Recogen sus bolsas
Borrachos y somnolientos
Tambaleándose en tresillos
Se escuchan
Tres golpes al piso
.
.
.
Y lo mismo es estar rondando
Que rodando en cama
Olvidarse de uno mismo

Escuché que son las tres

De la mañana
En algún callejón
En la ciudad del hastío

Corren tras de sí
Secretos romances
Entre notas vibrantes
De swing y hashish

Largo suspiro

Muere en la acera
La lluvia del día anterior

Observa a lo lejos
La montaña
Las fumarolas de un tren
En sus vías yace el cuerpo
De un sueño que fue
Y resuenan
Tres golpes al piso

Anticronología

Regresando sobre pasos propios
(Huellas agrietadas
y brotes moribundos)

Una vez más donde yacía
de espaldas al sol

Lívido atardecer
Bocanada de humo blancuzco
que exhala la tierra a la espera
del retorno de un eco silencioso
suspendido entre espacios vacíos
Fantasma de unos tantos segundos.

O Grande Fumador

(Falsa crónica de uma noite de primavera)

História é composta de ainda mais histórias; acontecimentos menores; pequenos segredos e algumas quantas mentiras e fatos errados. É assim desde o momento em que veio um “dia seguinte” e houve, então, a desculpa perfeita para relatar o “ontem”, com luxo de fantasia e palavrearia. Imaginação e história tem sempre compartilhado a mesma vaga nos anais da existência humana.
Desse jeito, história de dragão tem (quase) a mesma veracidade que alguma das tantas revoluções modernas; que alguma tragédia recente; ou neste caso, uma simples cena num bar lotado, numa cidade qualquer.
Fato não é prova ou evidência, senão acordo comum. Memória desdobra o tempo e palavra enfeita os sucessos. Os rostos se distorcem e os lugares, os espaços, as barras nojentas e a vileza da algaravia são todos misturados e estragados. Surge, efetivamente, um relato, desses que a gente gosta de contar despreocupadamente quando a situação merece.
Mas a memória é fraca e pouco confiável. Seja mesmo uma lenda ou um códice da ciência herodótica, tanto faz.

As palavras foram largadas há muito tempo; os tragos já foram bebidos e até vomitados; a trilha de cimento emporcalhado já foi recorrida e toda a bagunça dessa noite de primavera aquietou-se um dia depois, entre o barulho das máquinas, o queixume da cidade e a carraspeira e o fedor da ressaca.

Levou-me à rua a promessa de aventura, a música e o álcool barato. Camaradas, namorados e desconhecidos desfilavam nas calçadas por igual; uma sorte de safari urbano apresentava-se simpático. Dessa vez, bicho não tinha colmilho nem juba, mas
tinha batom vermelho, cera de cabelo e cheiro de água-de-colônia Chanel Number Three.

Ainda era cedo. Parei frente a entrada do boteco. A fachada inconspícua nunca teria me feito pensar nesse lugar como um espaço popular. Uma pequena cortina de miçangas separava o mundo exterior daquela outra realidade de luzes cálidas e fracas.
Entre conversas anódinas e ordinárias, afirmações idiotas e quantidades desconhecidas de cerveja gelada e coquetéis malucos, foi que passei as horas dentro desse buraco ataviado de garrafas com desenhos bonitinhos e olhares lascivos.
Um cara corte Tom Waits jogava músicas da sua curadoria na caixa de som, entanto uma garota lindinha tanto uma dessas bonecas russas de porcelana ia de um lado pro outro com uma bandeja na mão e uma marcha hipnótica, num balanço próximo a uma dança elegante.

Neste ponto a noite alçara e um ânimo torrado envolvia o local. Ainda mais pessoas ocupavam os estreitos corredores e o sangue fervia desejando os seguintes instantes da jornada, tomara com a mesma excitação e, se for possível, um fininho à vontade
antes de ir embora na pista do próximo sitio para extender nossa própria festa da primavera.

Enfiei pro banheiro tropeçando nas mesas e batendo nas costas do pessoal absorto no barulho dos trompetes atropelados e as risadas tumultuosas. Olhei logo pro espelho; ao redor, paredes cheias de marcas de caneta permanente, adesivos maneiros e
espalhadas recordatórias da promiscuidade da mãe de alguém.
Lá fora, do outro lado da porta, uma tagarelice pegou minha atenção. Dois caras discutiam exaltados; falavam nem sei o que das suas glórias passadas. Pareciam mesmo moleques tentando superar a anedota do outro. Mas aquilo era provavelmente
a coisa mais perta de uma competição viril; uma infame “contagem de vitimas”; pelo menos a oportunidade perfeita de se vangloriar das suas pirocas, do mesmo jeito que artista otário mostra orgulhoso mediocridade disfarçada de obra monumental.
Um deles declarava ser um suposto “Grande Fumador”; gabava-se empolgado das suas façanhas pois, segundo ele, consumira “cinco maços de cigarros numa hora”; “só Lucky Strike sem filtro, isso daí não é brincadeira, não”.

Enquanto o outro homem, um cara roliço, desalinhado, bem ligado na conversa, mantinha o tempo todo uma expressão de total desprezo, até que, finalmente, explodiu num acesso de raiva. O fera tava puto mesmo.
“Olha só, menor. Cê nem sabe porra nenhuma! Da vida sou garimpeiro, e além disso trovador. Fica certo, mermão, eu mesmo sou o Grande Fumador!”
Aquele homem corpulento exclamou crispado. Sua face tornou-se como a de um boi. O lugar encheu-se de silêncio logo depois ter pronunciado essas palavras. Por um momento, só um instante, pareceu-me ouvir as bolhas dos copos de cerveja rebentarem na superficie.
“Eita, porra. Tou só de sacanagem… só uma piada”. O cara tentou acalmar um pouco a situação, no entanto palidejou. “Não existe negócio do Grande Fumador, viu. Fique de
boa, na moral”. Tal parece aquilo foi pro mano roliço uma punhalada no orgulho, um insulto e sobretudo, a vulneração de uma das poucas coisas que, com certeza, sustivera a fútil vida de engano à que um pobre diabo dedicou-se, louvavelmente, desde há tanto tempo.
A encomenda do descobrimento da fraqueza da alma? O espirito dos prazeres hedonistas? Apenas uma dependência da nicotina e a merda dos químicos carcinógenos? Tanto faz.

Saímos do boteco ao mesmo tempo. A rua estava tanto ou mais lotada do que antes. Nós ambos, o Grande Fumador e eu —um simples mortal—, rodeados dos velhos edifícios de pedra ardósia e os cadáveres das estruturas metálicas no centro da cidade.
O homem pegou um cigarro sem filtro da sua bolsa e acendeu. A fumaça manava bem devagar e dissipava-se com o vento.
Essa noite o homem fora embora sozinho no seu proprio caminho; morreria momentos depois, esvaecido sobre sacos de lixo e água parada.

Acordei a manhã seguinte no chão de um departamento alheio, com um gosto ruim na boca e os sapatos sujos com vômito. Via na mesa um maço de cigarros.

Erick Morgan Morales (Mexico City, 2002) is a Mexican writer whose work focuses on poetry and short fiction. Deeply influenced by the Beat Generation and Brazil’s Mimeograph Generation, as well as by the works of Alejandra Pizarnik, Salvador Elizondo, and Samuel Beckett, his writing seeks to create images of fleeting moments through an exploration of language and an indifference to the formal constraints of poetic structure. His work draws inspiration from the freedom of jazz music and the abrasive noise of hardcore.

Since the age of eighteen, he has devoted himself to the study of foreign languages—including Portuguese and Russian—which has allowed him to learn from and be shaped by diverse cultures around the world. This experience has also driven his tireless exploration of different literary voices and styles. He is currently planning to pursue higher education in Portuguese Language and Literature.