Carta a Joyce
James, esta noite chorei pela inocência que perdi. O sol me queimava a pele de bons ares e eu derramando sangue por quem fomos. Sempre ferida aberta? Sempre ferida aberta. As gotas espessas encheram minha boca. Faço isso e mostro os dentes enquanto gargalho. É que acho absoluta graça das nossas visões de mundo em ruínas. E meus olhos no chão das salas me hipnotiza o humor.
James, você não é o meu melhor amante. Apenas aquele por quem me perdi, de novo. Talvez seja a entrega, já que aceitei dormir a noite inteira a seu lado. Eu não o faço com os outros, James, eu sumo. Acordar no primeiro pensamento do dia é amor. E odeio o amor. Nossos olhos abriram juntos na consciência de nós mesmos na treva, na solidão e no mistério. Palavras e gestos de uma mulher sem artifício. (Ultimamente algumas de minhas opiniões me soam algo como pueris. Sinto pena do fim destas palavras na minha boca. Sinto angustia de não fonetizar as próximas. Você me acalmou a dó, quem sabe não preencha o vazio. Nem um deus, nem um deus. Tenho sangue demais para ser como os outros. Você sabe, meu bem, você sabe. Desses meninos mais velhos que sabem tudo de álgebra, só me interessa o passo. Não me acalma, não muda de assunto, fica comigo nisso.) Colo e seios desnudos na porta, chamo um estranho para o leito.
Sobre aquilo, acho belas as suas definições. Apenas que estética, para mim, tem um quê de cinético. Agora, agora. Talvez eu seja jovem demais para estática. Ou estase é o que tanto chamo de amor – então não dura. É que a beleza não para, flui. E paixão é, pra mim, a consequência cinética: deglutir, devorar, fracamente engolir. Recriar da terra bruta os limites da alma – som, forma, cor – é outro (puro) drama. É que, se não é vida, pode ser arte?
Mas você sabe, não sabe, James?, que meu sangue às vezes é ketchup?
es que hago con tomates lo mismo que yo haría con mi piel
e a gente acredita, que é bonito víscera. Mas como pode? Como pode aceitar no fazer e não no ser? Não, ser é fazer-se o criador da criatura. lo siento. Sou fogo do hemisfério, não travo a língua: abro. Se me esforço em lhe entender, peço que respeite meu expressar. É política isso, James, é política. Longe de padres, imagens e hierarquias, perto do povo. Não desista. Sirvo meu lar, pátria ou igreja, desde que me libertem. A cidade me pede sua paz esta noite e nós iremos descalços.
la lucha de classes es accíon para desnudos.
Longe do lar e dos amigos, aprende-se o que o coração é e o que ele sente, sim. Ainda assim, é melhor do que perto. Antes da volta à minha gente, sinto algo. Sê bem vinda, ó vida! (Nós rimos disso, pelo ó) Vamos ao encontro, pela milionésima vez, da realidade da experiência a fim de moldar, na forja da nossa alma, a consciência ainda não criada da nossa raça. Ó James, ó passado, bailemos. A língua falha, esquece o que é. Mas como esquecer? Como? Se é constante presente? Se se amarra em nós e puxa as cordas de uma marionete que não quer obedecer. Quer fugir. Nem mesmo, nem mesmo, brigar. Fugir. Não estar. Quer não pertencer ao que não é. Quer ar.
Se amanhã cair água, não traga meus óculos escuros, que eles vem nos buscar, finalmente. Olhe a janela. Vê? É o inferno. Eu os trouxe aqui, onde moro. A gente sempre volta ao primeiro amor, berço e mama. Eis a corda da marionete quebrada de vontade. Eis a aflição involuntária. Se amanhã chover, não se esqueça dos meus óculos escuros ou lhe arranco os olhos. Como fiz com os meus esquerdos. Ainda sinto os gostos dele nas salas. Cada cuidado é um soco. Se amanhã for hoje e a tempestade nos matar, vista você os meus óculos e vá.
Mas Lucas, mas Lucas… dele eu não arranco os olhos, pois é dele tudo o que tenho. O mistério de uma vida que pulsa: olho. Me dói a caixa torácica este amor, este tempo finito da vida.
e só me importa a revolução
interna e individualista yeah yeah yeah contra a tirania do ego e a prisão da organização social yeah yeah yeah contra a prostituição involuntária a um inferno ainda maior que o meu.
aí você me manda este amor exato. À medida do meu egoísmo ilusionista. Fuga perfeita ou paixão transgressora?
Oh, no.
Now I can say like you like. Just because. Oh, now.
(Sempre ser pelo amor? No. Como é fácil obcecar-se com os detalhes a vida inteira!)
Mamãe não arruma roupas de segunda mão, não me arruma. Dela eu quero mais. De mamãe. Ela me ensinou a fugir quando não sei dizer. Os velhos artificies que sejam salto – como você é, James. Não resista.
Faz-se em vida a poesia.
Um beijo,
Maria
PS: Loba gosta da sua androgenia. Eu adoro vocês. Mas desejo como nunca a minha tríade de mulheres sagradas. Meus oito olhos de aranha. Minhas videntes. Alguma paz. Alguma paz dentro da violência-sexo. Qual a arte que não é intervalo do inferno?
Buenos Aires, Janeiro de 2014.
Maria Giulia Pinheiro

Maria Giulia Pinheiro (São Paulo, Brazil, 1990) is a poet. As a poet, she also writes plays, directs, creates, researches, teaches, and curates literary and artistic gatherings. She is currently pursuing a Ph.D. in Discourses: Culture, History and Society at the University of Coimbra, is the founder of the FALA Orgânica Association, and has been Artist-in-Residence at the Alcântara Municipal Library (Lisbon) since 2023.
She was the winner of the 2nd New Playwriting by Women Award (DGArtes) with her play Isso Não é Relevante (That Is Not Relevant). She is the author of five books of poetry and drama, published in Brazil and Europe.
Her performance piece A Palavra Mais Bonita (The Most Beautiful Word), for which she is the writer, director, and performer, has toured Portuguese-speaking countries since 2019, with seasons in Mozambique, Brazil, Portugal, and Spain (Galicia).
In Portugal, she has created a number of literary events designed to bring together Portuguese and migrant communities through literature—particularly poetry and drama—and performance. These include SLAM no CAM (Calouste Gulbenkian Foundation), Todo Mundo Slam (Lisbon), Slam Camões (Municipality of Coimbra), and Ginginha Poética, created in Lisbon and now presented nationally and internationally, particularly at literary festivals such as FLIP (Paraty International Literary Festival) and FOLIO (Óbidos International Literary Festival).
She also brought to Portugal literary events originally created in Brazil, including Ciranda: Jogo de Palavra Falada (Ciranda: A Spoken Word Game), currently hosted at the Fernando Pessoa House, and ZONA Lê Dramaturgia (ZONA Reads Drama), currently part of the Teatro do Bairro Alto programme.
As a playwright, she premiered Palimpsesto: O Que se Apaga para Escrever de Novo? (Palimpsest: What Is Erased to Write Again?) in 2024, directed by Lucas França and supported by DGArtes and the GDA Foundation. She has been writing for the theatre since 2012, when her first play, Bruta Flor do Querer, which she also directed, premiered. Since then, she has written numerous scripts and theatrical works.
In 2017, she founded and has since coordinated the Feminist Playwriting Collective, where she teaches playwriting through the works of women artists. In 2020, the programme moved online, attracting more than 500 participants and leading to the publication of two anthologies featuring texts developed during her courses.
For more information, visit www.mariagiuliapinheiro.com or https://www.falaassociacao.pt/.
