PALAVRAS DO SILÊNCIO
Oram que podem ceifar,
e oram que podem sarar.
Cantam de sorrir desde a alma,
e cantam de chorar mesmo sem olhos.
Sabem razões entre delírios,
e sabem dignos de reais
onde vozes e olhos de cá só quimeras.
Têm vidas na parca,
e têm que morte na vida que vive.
Vivem homens armados de inescrupulosos,
e vivem homens que se comprazem de humanos.
Encontram com santos,
e vivem encontros com demônios.
Morte, e ódio, e terror;
e vida, e paz, e amor.
in: “TRADUTOR DE SILÊNCIOS”, pág. 100
E OS SONHOS?
Por que há vida, vivos seus peregrinos,
e o partir para buscá-los:
os que na esperança ansiamos
outros já existem realizados,
porque não são,
porque jamais foram nossos.
E quais são?
(estes sonhos que não são nossos)
Aqueles vividos pela gente
manjada, à sua homogeneidade, por este chão
porque das carnes partiram aos ventos…
e à fina poeira que nos abraça
nas núpcias de kasimbos
como os das terras africanas.
E na beira da estrada aos sonhos avistados
despidos de vozes aos anelos de erguê-los
vivem ruínas aos contemplares que entretem
pelo silêncio que atiça desejos que reflectem:
quem dera narrassem suas vésperas,
ouvi-los só sonhos nos sonhos de seus sonhadores
e caminhares na firme estrada às suas vidas.
E os sonhos?
São como a vida!
Vivem perenes na esperança dum devir,
e realizados,
quando os seus vestígios não partem
só, com os seus sonhadores para aquela vida.
DURE QUE DURAR
Vozes minhas, merecerão ouvidos
Meus cogitares conhecerão sentidos
Uns homens hão-de partilhar
Um mundo há-de partilhar
Versos meus, serão cantados e contados
Haverá razão
Viverei ignorado por uns poucos
Excitarei a emoção
Um treslouco par’ alguns
Amado
Dentr’uns, credor de ser abominado
Irmão dentre irmãos
Um homem de tempos
Poeta que se fez no tempo
sentenciado por que vivi no tempo
Uns poemas hão-de de adejar em dentros
Hostilidades pousarão à paz
Sombrios avistarão a luz
O dia findará e a lua dará luz às estrelas
De batalhas, ressoares d´hinos de vitórias
Amor domará o ódio
A intrepidez, a honra triunfarão agires sob ócio
Pela poesia um poeta há-de viver morto!
ÀS ÁFRIKAS
Que partiram
além de seus mares
pela ponte branca negra,
que lhes nega(ra) pés de regresso,
viva, sã história,
génese do universo:
eis que Terra Mãe vos espera
e vossa ressurreição
à sua vida nua de inglórias!
MULHER DE NEGRA
Ginga sobre passos suaves
Baloiça sua beleza em acume de sorrisos
Sua pele abriga encantos suaves
Mulher de negra, tem glamour desde cabelos
Perfumada desde o insuflar divinal
Ginga sobre o pó da terr’arte natural
Tem peito às guerras pela terra
Defende seus sonhos, acoita bravura
Desgrudaram-te pela cor
truculentos os insanos
fizeram de melancólicos ventres seus olhos
Tem beleza às belezas, ajaezada pela sua cor
Seus homens podem-te celeste dentre astros
Reflectem destreza, amor eterno, rasgados olhos.
CAMINHANTE,
Tenha tempo de viver…
Se puderes,
Mesmo a última coisa a fazer,
Sem o calor da pressa.
E os passos que deres,
Na hora dessa jornada
(cheia de vistas),
Dá-os ensinando a liberdade,
Entre prisões e escravidões.
Enquanto não sentires que vives,
Não aceites morrer
De duas mortes, não queiras ser vítima.
Adentre os caminhantes,
Sabe o prazer da existência?
Não mates cada chance de ressuscitar.
SURPREENDE-ME A AURORA?
É aurora a esperança em mim
não é preciso a madrugada
(é esta que lhe espera desesperada de sempre)
porque a dor dói sem hora certa,
então, sempre espero o alívio
entre todas as mortes
mesmo das que não me visitaram ainda.
Surpreende-me a aurora?

Zé Franco (W’Áfrika), born José Manuel Francisco Franco, is an Angolan teacher, writer, poet, troubadour, and haiku poet. A native of Malanje, Angola, born on May 31, he studied at the Institute of Religious Sciences of Angola (ICRA) in Malanje, now known as João Paulo II Teacher Training College.
He has received recognition in Brazil and internationally through numerous awards and honorary titles, including “Grand Master of the Arts” and “Lusophone Cultural Delegate” in Brazil, as well as an Honorable Mention in the “Golden Pen International Prize” for his poem A Land My Grandfather Dreamed Of.
Among other affiliations, he serves as a representative and member of several literary institutions, including the São Paulo da Aldeia Academy of Letters (ALSPA), Brazil; the Brazilian Camaquian Academy (ABC), Brazil; and the Academy of Letters, Sciences, and Arts of Ponte Nova (ALEPON), active in both Brazil and Portugal.
He has contributed to numerous international anthologies and has published texts in magazines and newspapers throughout the Lusophone world, including Brazil, Portugal, and Mexico. Notably, he writes for the cultural newspaper ROL and Casa de Escritores Magazine, where he is a regular columnist.
His poems have also been recited and acclaimed on radio stations and by prominent cultural figures in Brazil and Portugal. He is the author of Translator of Silences, published by Filos Publishing House in Brazil.
