Ronaldo Cagiano

SINTAXE DO CAOS  

porque é assim que o mundo começa e é assim que o mundo acaba

Cláudia R. Sampaio

Lá fora gritam as cifras,

(calam-se os pardais)

horrendos cemitérios emergem    

   do fundo das noites.

Tudo parece inexistir,

só a náusea não cessa o seu furor,

que nome dar a esse tempo de serpentes?

Que réguas para medir o desconforto?

Os dentes rangem

ao mínimo sinal da tempestade,

a neblina converte meus olhos

em outro cárcere

Em tudo há falha ou

desejos vãos

e os dias nascem e morrem cheios de nervos,

não me esperam escovar os dentes

para visitar meu pai no hospital.

É preciso ressuscitar a cada hora

e esterilizar o moedor de carne dos dias:

o desconhecido nos espreita

com sua boca ávida, com seus guantes

de aço.

Quando eu morri, um anjo certo,

desses que aparecem sem ser convidados,

veio ter ao meu caixão:

“Vai, garoto! Ser o que nunca sonhaste”.

  ANTAGONISTA

  A palavra é a fogueira

a queimar todos os horrores

nessa paisagem sem piedade

nem remorsos.

Atravessando desertos

& blasfêmias,

o poema não se submete

ao engano das miragens:

rio que atravessa

o mais fundo exílio,

espera o estuário,

para libertar-se

das margens opressoras,

interroga o insondável

que o espera,

seta antagonista

com sua atroz verdade,

arremesso contra a ferrugem

do tempo

TEOLOGIA DA ESCRAVIDÃO

                      Quem se lembrou de pôr sobre a mesa

                                                essas doces evidências

                                                                   da morte?               

                                  Ana Martins Marques

Quão tristes são esses tempos

nos trópicos:

a selva trágica não esconde suas cifras

a pandemia inaugura outra hecatombe

esculápios renegam a verdade do vírus

e a banalidade do mal

revigora a homilia fascistoide

dos que veem na vida

mero detalhe

e na morte a frieza burocrática

das estatísticas

Abro a janela e lá fora

o dia vai cavando suas sepulturas,

oferece um banquete de horror

onde distribuem medo e

escuridão

Nessa mesa torpe,

os comensais de sempre

nos dizem que

viver não tem lugar,

cada prato é servido

com a contumácia acre

dos cálculos matemáticos,

evidência de uma desumanidade

que ganha o altar da insanidade

e salvar a economia

conta mais que poupar cada um

da fúria persuasiva da Indesejada.

Somos acossados pelo espanto,

as certidões de óbito

são redigidas pela caligrafia torpe de deus.

NOSOCÔMIO

na casa fabula-se outra casa – em ruínas

   Mar Becker

A casa

é a mesma

e outra a que se esconde:

um hospício onde

proliferam tantos fantasmas

labaredam segredos

fartam-se os obituários

e a verdade se contorce

no escárnio veemente do tempo

na voracidade dos cupins

na corda bamba de nossa miséria

Acrobatas de destinos impossíveis

(sofredores do ver) feito Maura Lopes Cançado,

a tragédia de existir

(entre ruínas)

semeia dilemas e algemas.

  A VIDA NÃO TEM MÉTRICA

Matéria inabitada,

o futuro não sabe nada de nós,

assim como reclamamos do passado

aquilo que a memória sabotou

em nossos corações esquivos

Pisamos o presente

como se fosse nossa dízima periódica,

esticamos as cordas para medir os desenganos;

e o resultado é nunca absorver o mínimo

de nossa máxima fugacidade.

Na autópsia do instante,

fósseis de um tempo natimorto

povoam as vísceras do pranto

PRESSUPOSTO  

Borges não toleraria enxergar

nesses tempos de absoluta

claridade do caos.

ESTRANGEIRO

E a noite com seus gumes,

pleno animal em chamas,

não nos devolve

aos dias que não conhecemos

A pedra anônima

a embrutecer o peito

não nos deixa escavar

para alcançar a manhã

Esse lugar

apartado,    

habita-me

como o ventre da baleia

que engoliu Jonas

Passageiro indomável,

desertor de todas as paisagens,

nenhuma Nínive

acolhe-me do vasto pesadelo,

nenhum peixe

devolve-me às vísceras do sonho


AFRESCO

Desse mundo que em nós (o)corre

como um sangue envenenado,

tentamos escapar,

entre escuros & escombros,

de sua crueldade matemática,

tatuando labirintos,

entre lâminas

e tocaia de serpentes.

O outro é meu enigma,

a neblina num estrangeiro desabitado:

em sua história estão cravados

os muitos vírus que eu desconhecia,

na ressurreição de fantasmas natimortos,

há um museu onde a humanidade

expõe todos os seus plágios

e fracassos

e em cujos salões de tantos passos perdidos,

onde desfilam contendas e esquifes,

adentramos sem pagar ingresso,

navegando nesse rio inútil,

sem saída de emergência.

INSULARIDADE

                     O agora é um deserto

Marcos Losnak

Todos os desertos

num tempo só

num homem só

Estamos aquartelados

e divididos

enquanto os vassalos do mercado

tripudiam sem escrúpulos

as dores e os obituários

em sinistra romaria

nas fossas palacianas

Nossas casas: sepulcros do medo

A rua: o cárcere insolente da pandemia

Entre tantas noites e pouca luz

sob o caos e a ruína

somos animais desesperados

reféns do imponderável

nesse cenário de rituais envenenados

e alegrias subtraídas

Esse agora travestido

de espúria normalidade

pertence ao inefável,

e dissolve-se no domicílio

das Parcas

Os horizontes fracassaram

diante dos nossos olhos,

nada além da longa espera,

nada menos que o desviver

Ante a didática do insondável

e o estremecer da vida,

todos homiziados

numa epidêmica virtualidade,

tão amarga quanto o vazio dos domingos

Enquanto o passado pede socorro

e o presente morreu de tédio,

já é longa a vertigem

e o futuro inabitável.

Ronaldo Cagiano:

A Luso-Brazilian writer born in Cataguases (Minas Gerais), he lived in Brasília—where he earned a law degree—and in São Paulo, and has been based in Portugal for nine years. He made his literary debut in 1989 with Palavra engajada (poetry).

Among his published works are Dezembro indigesto (short stories, winner of the Brasília Literary Production Prize, 2001), Dicionário de pequenas solidões (short stories, Língua Geral Publishing, Rio, 2007), O sol nas feridas (poetry, 2013, Dobra Publishing, São Paulo, finalist for the Portugal Telecom Prize), Eles não moram mais aqui (short stories, Patuá Publishing, winner of the Jabuti Prize 2016 / Gato Bravo Publishing, Lisbon, 2018), Cartografia do abismo (poetry, Laranja Original Publishing, São Paulo, 2020), Arsenal de vertigens (poetry, Húmus Publishing, Portugal, 2022), and Horizonte de espantos (short stories, Urutau Publishing, Pontevedra, 2022).

He has also organized the anthologies Poetas mineiros em Brasília (Varanda Publishing, Federal District, 2001), Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, Federal District, 2004), and Todas as gerações – O conto brasiliense contemporâneo (LGE Publishing, Federal District, 2006).