| SINTAXE DO CAOS |
porque é assim que o mundo começa e é assim que o mundo acaba
Cláudia R. Sampaio
Lá fora gritam as cifras,
(calam-se os pardais)
horrendos cemitérios emergem
do fundo das noites.
Tudo parece inexistir,
só a náusea não cessa o seu furor,
que nome dar a esse tempo de serpentes?
Que réguas para medir o desconforto?
Os dentes rangem
ao mínimo sinal da tempestade,
a neblina converte meus olhos
em outro cárcere
Em tudo há falha ou
desejos vãos
e os dias nascem e morrem cheios de nervos,
não me esperam escovar os dentes
para visitar meu pai no hospital.
É preciso ressuscitar a cada hora
e esterilizar o moedor de carne dos dias:
o desconhecido nos espreita
com sua boca ávida, com seus guantes
de aço.
Quando eu morri, um anjo certo,
desses que aparecem sem ser convidados,
veio ter ao meu caixão:
“Vai, garoto! Ser o que nunca sonhaste”.
ANTAGONISTA
A palavra é a fogueira
a queimar todos os horrores
nessa paisagem sem piedade
nem remorsos.
Atravessando desertos
& blasfêmias,
o poema não se submete
ao engano das miragens:
rio que atravessa
o mais fundo exílio,
espera o estuário,
para libertar-se
das margens opressoras,
interroga o insondável
que o espera,
seta antagonista
com sua atroz verdade,
arremesso contra a ferrugem
do tempo
TEOLOGIA DA ESCRAVIDÃO
Quem se lembrou de pôr sobre a mesa
essas doces evidências
da morte?
Ana Martins Marques
Quão tristes são esses tempos
nos trópicos:
a selva trágica não esconde suas cifras
a pandemia inaugura outra hecatombe
esculápios renegam a verdade do vírus
e a banalidade do mal
revigora a homilia fascistoide
dos que veem na vida
mero detalhe
e na morte a frieza burocrática
das estatísticas
Abro a janela e lá fora
o dia vai cavando suas sepulturas,
oferece um banquete de horror
onde distribuem medo e
escuridão
Nessa mesa torpe,
os comensais de sempre
nos dizem que
viver não tem lugar,
cada prato é servido
com a contumácia acre
dos cálculos matemáticos,
evidência de uma desumanidade
que ganha o altar da insanidade
e salvar a economia
conta mais que poupar cada um
da fúria persuasiva da Indesejada.
Somos acossados pelo espanto,
as certidões de óbito
são redigidas pela caligrafia torpe de deus.
NOSOCÔMIO
na casa fabula-se outra casa – em ruínas
Mar Becker
A casa
é a mesma
e outra a que se esconde:
um hospício onde
proliferam tantos fantasmas
labaredam segredos
fartam-se os obituários
e a verdade se contorce
no escárnio veemente do tempo
na voracidade dos cupins
na corda bamba de nossa miséria
Acrobatas de destinos impossíveis
(sofredores do ver) feito Maura Lopes Cançado,
a tragédia de existir
(entre ruínas)
semeia dilemas e algemas.
A VIDA NÃO TEM MÉTRICA
Matéria inabitada,
o futuro não sabe nada de nós,
assim como reclamamos do passado
aquilo que a memória sabotou
em nossos corações esquivos
Pisamos o presente
como se fosse nossa dízima periódica,
esticamos as cordas para medir os desenganos;
e o resultado é nunca absorver o mínimo
de nossa máxima fugacidade.
Na autópsia do instante,
fósseis de um tempo natimorto
povoam as vísceras do pranto
PRESSUPOSTO
Borges não toleraria enxergar
nesses tempos de absoluta
claridade do caos.
ESTRANGEIRO
E a noite com seus gumes,
pleno animal em chamas,
não nos devolve
aos dias que não conhecemos
A pedra anônima
a embrutecer o peito
não nos deixa escavar
para alcançar a manhã
Esse lugar
apartado,
habita-me
como o ventre da baleia
que engoliu Jonas
Passageiro indomável,
desertor de todas as paisagens,
nenhuma Nínive
acolhe-me do vasto pesadelo,
nenhum peixe
devolve-me às vísceras do sonho
AFRESCO
Desse mundo que em nós (o)corre
como um sangue envenenado,
tentamos escapar,
entre escuros & escombros,
de sua crueldade matemática,
tatuando labirintos,
entre lâminas
e tocaia de serpentes.
O outro é meu enigma,
a neblina num estrangeiro desabitado:
em sua história estão cravados
os muitos vírus que eu desconhecia,
na ressurreição de fantasmas natimortos,
há um museu onde a humanidade
expõe todos os seus plágios
e fracassos
e em cujos salões de tantos passos perdidos,
onde desfilam contendas e esquifes,
adentramos sem pagar ingresso,
navegando nesse rio inútil,
sem saída de emergência.
INSULARIDADE
O agora é um deserto
Marcos Losnak
Todos os desertos
num tempo só
num homem só
Estamos aquartelados
e divididos
enquanto os vassalos do mercado
tripudiam sem escrúpulos
as dores e os obituários
em sinistra romaria
nas fossas palacianas
Nossas casas: sepulcros do medo
A rua: o cárcere insolente da pandemia
Entre tantas noites e pouca luz
sob o caos e a ruína
somos animais desesperados
reféns do imponderável
nesse cenário de rituais envenenados
e alegrias subtraídas
Esse agora travestido
de espúria normalidade
pertence ao inefável,
e dissolve-se no domicílio
das Parcas
Os horizontes fracassaram
diante dos nossos olhos,
nada além da longa espera,
nada menos que o desviver
Ante a didática do insondável
e o estremecer da vida,
todos homiziados
numa epidêmica virtualidade,
tão amarga quanto o vazio dos domingos
Enquanto o passado pede socorro
e o presente morreu de tédio,
já é longa a vertigem
e o futuro inabitável.

Ronaldo Cagiano:
A Luso-Brazilian writer born in Cataguases (Minas Gerais), he lived in Brasília—where he earned a law degree—and in São Paulo, and has been based in Portugal for nine years. He made his literary debut in 1989 with Palavra engajada (poetry).
Among his published works are Dezembro indigesto (short stories, winner of the Brasília Literary Production Prize, 2001), Dicionário de pequenas solidões (short stories, Língua Geral Publishing, Rio, 2007), O sol nas feridas (poetry, 2013, Dobra Publishing, São Paulo, finalist for the Portugal Telecom Prize), Eles não moram mais aqui (short stories, Patuá Publishing, winner of the Jabuti Prize 2016 / Gato Bravo Publishing, Lisbon, 2018), Cartografia do abismo (poetry, Laranja Original Publishing, São Paulo, 2020), Arsenal de vertigens (poetry, Húmus Publishing, Portugal, 2022), and Horizonte de espantos (short stories, Urutau Publishing, Pontevedra, 2022).
He has also organized the anthologies Poetas mineiros em Brasília (Varanda Publishing, Federal District, 2001), Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, Federal District, 2004), and Todas as gerações – O conto brasiliense contemporâneo (LGE Publishing, Federal District, 2006).
