Sou um poeta em construção
Sou um poeta em construção,
a minha cabeça é uma grua de sóis e pesadelos,
as minhas mãos são pás do absurdo que desfazem as
entranhas do mundo com a insegurança de quem
aprende lentamente,
Sou um poeta em construção
Ergo a argamassa das palavras, sustentando cada uma
como uma como uma canção vinda do principio dos
tempos, ressoando no meu corpo com uma agudez
crua,
sou um poeta em construção
Sou uma criança louca a brincar no jardim
das coisas, parto louças, edifico andares, ilumino ruas,
nado em terra e passeio pelo Mar,
vou indo, navio de indolência que vai errando todos
os portos da vida,
Sou um poeta em construção
Observo a cidade a desvanecer-se num tédio cinzento,
os carros a atravessarem loucamente as faixas, os
transeunte a percorrerem passadeiras como manequins
num qualquer desfile, e entrevejo o verde das aldeias e
as mulheres a entoarem velhas ladainhas aprendidas
das avôs,
o pão a ser cozido no Moinho, as couves a serem
colhidas pelas mãos ásperas das madrugadas, e nem
um lugar é o céu, nem o outro inferno, só espaços
habitados por homens e mulheres, no seu movimento
diário de estranhamento de si mesmos
Sou um poeta em construção
Escrevo-me sem me perceber,
essa é a sina daqueles que são engolidos
pela escrita, essa Baleia branca que nos mastiga todos
os dias,
um capitão Ahab de braços abertos à grande voragem
do tempo,
Sou um poeta em construção
E este o é meu caminho,
Esta é a minha verdade,
alguns chamam-lhe insanidade eu chamo-lhe
liberdade, de andaime em andaime, vou subindo a
minha alma no penhasco da inconsciência
sou um poeta em construção e quero
toda a humanidade,
todo o excesso que os homens atribuem aos Deuses
Nem mais …
Nem menos ….
Só todo o Universo na minha boca
Só tudo dentro de mim,
nesse sublime destroço que é a língua sem freios
Amores tardios
Chegamos tarde um ao outro,
Estávamos numa estação de comboios, em horários
diferentes, o teu comboio já partira e eu só via o som
da locomotiva a afastar-se no trilho, e olhava para o
bilhete sem destino, que me abrasava a mão
Era uma rua, estranhamente assimétrica, eu passeava
na mesma direção, mas tu vinhas e trespassavas-me
como um fantasma, com o teu espectro a tocar-me ao
de leve
Eram as férias grandes, o baile já estava no seu auge, e
eu ia pedir-te para dançar quando um braço
impositivo me afastava de ti
Éramos quase crianças, a explorar o acne da
adolescência e o tato do desejo a medo, e os teus pais
mudavam-se de cidade, e tu, no assento de trás do
carro, acenavas cegamente para a minha silhueta em
dissolução
Chegamos tarde meu amor, o mais tardiamente, o mais
impossivelmente que poderíamos chegar, mais tarde do
que todas as tardes do mundo, tão tarde que se fez
noite fria, tão tarde que todos os calendários ficaram
desatualizados, e todos os relógios inverteram os
ponteiros
Vivemos, sei porque a pupila dos teus olhos não mente,
num qualquer passado onde nos encontrámos,
provavelmente num café, a primeira, a segunda e a
terceira impressão foram péssimas, mas depois já nos
passámos a suportar e um dia, chovia uma saraivada
nortenha, eu abriguei-te no meu guarda-chuva
destroçado pela intempérie, e convidei-te para ir a uma
matiné de cinema ( nunca me lembrei do nome do
filme), mas vi-te no breu e nunca mais encontrei uma
cor como a tua
Depois, namorámos, casámos, tivemos filhos, netos e
bisnetos, uma família interminável, uma autêntica
dinastia com bastardos à mistura, tivemos mil e um
trabalhos, viajámos países inteiros, trocámos presentes
de Natal, fizemos sexo medíocre, colecionamos
dissabores, ouvimos os Doors noites inteiras, dois
corpos navio, remando no absurdo mar da
humanidade, movidos a vontade e a paixão
Tivemos tudo isso
ou imaginamos tudo isso,
e somos só dois velhos solitários à janela a observar a
existência alheia, à espera que o outro apareça
Chegamos tarde, meu amor, mas aqui estamos,
pendurados no limiar da existência
Todos os amores são tardios,
Todos chegamos tarde ao amor,
e todas as tardes do mundo não são suficientes para o
alcançar
Caleidoscópio
Hoje li a minha alma,
Saía da cama, quando a minha mão me acordou e
chamou-me para a noite e o céu tirou-me o chão,
e vi coisas que as palavras não conseguem descrever
O meu quarto já não estava ali, talvez nunca tivesse
estado naquela conjugação astral
e eu vi, eu vi pela primeira vez, todos os ângulos
impossíveis da vida, toda a geometria desconhecida que
se esconde atrás da poeira do tempo
Havia cidades visíveis que se eclipsavam mal as
víssemos, e cidades invisíveis que chegavam à
pupila dos meus olhos, ganhando formas
E eu partia, mergulhando no meu olhar
Havia cavalos selvagens em manada,
galopando Oceanos e atravessando as Antípodas
Havia mulheres que entrelaçavam os cabelos nas ruas,
olhando de frente o atropelamento do amor
Havia Portos que eram subitamente Barcos, e que
deixavam a terra e avançavam como bandeiras
espraiadas pelo Mar
Havia Sóis distantes que se acotovelavam para me ver,
uns frios, outros quentes, numa cromatografia de
ciúme e sedução
Havia sonhos que se punham de pé e dançavam, altivos
e reais, sonhos em estado de êxtase e loucura, sonhos de
carne, ossos e sangue como pessoas
Hoje, deixem-me gritar, eu, sim, eu, este pedaço de
homem em convulsão, este naco absurdo de
fragilidade,
Deixem-me gritar,
li a minha alma
e fiquei trémulo como se as estrelas viessem ter comigo
e me dissessem “ somos tuas”
Havia aves gigantes, que balançavam as asas ao vento
sideral, velejando num movimento regular
Havia um Deus concreto que ficava em terra,
horizontal como todos nós, que perdigotava e jogava
às cartas connosco, bebendo umas cervejas e
arrotando de vez em quanto
Havia escritores que não eram tratados como inimigos,
e cujas palavras bebíamos como água primordial,
escritores cujas frases percorriam a língua e fugiam
dela para outras línguas vindas do Infinito
Havia tanta coisa, cirandando no Universo
Tanta coisa:
palhaços tristes
trapezistas
cães lambendo os seios da Lua
maestros pautando o som dos mundos
advogados a fazer o pino
sexos penetrando auroras boreais
corpos jovens orbitando à minha volta,
pintores instalando o cavalete no princípio do Cosmos
E a luz, a própria luz, aquela que Einstein formulou
em teoria e a física quântica transformou em enigma,
vinha ávida de mim, consumindo-me num trago e
pousando-me no estômago
E havias tu, impassível, pedalando na bicicleta do
tempo, passeando a eterna juventude que nunca iria
esmorecer, e eu seguindo a curva do teu corpo,
pedalando também, dois ciclistas movendo a roda da
paixão sem freio, pelo espaço adentro
Digam a toda a gente a novidade:
Foi hoje que tremi
Foi hoje que a minha cama voou
Foi hoje que abri o livro que decifra todo um ser
e o faz Infinito
Hoje,
Sim,
Hoje
Digam ao mundo,
eu li a minha alma
e nada será igual daqui para a frente,
nada será igual daqui para a frente !
Pátria
Aprendemos, em crianças, a viajar para longe de nós
mesmos, nesse Mar sem retorno que é o mito de quem
somos
Aprendemos, na ardósia da escola, nos cafés, nas ruas,
na televisão, que somos uma Ilha de heróis sem
mácula, de reis com o dom da profecia, de navegantes
que trouxeram a civilização, e não a escravidão e o
sangue dos outros
Educamo-nos na arte da fuga e da farsa teatral:
queremos sempre partir para algum lugar no passado,
queremos sempre ficar nesse presente ausente, como
cadáveres petrificados pelo medo
Um dia, séculos atrás, vestimo-nos com um fato de
lantejoulas e pedras falsas, despindo-nos da terra que
devia ser nossa, e desde então viajamos às arrecuas do
destino
O nosso traje é feito de ouro, prata, especiarias, mas
não nos serve, porque temos demasiada barriga para
tão pouca inteligência, somos um barco eternamente
parado no cais da esperança
A nossa memória convocou línguas de todo o mundo,
mas nós calamos a nossa própria fala e silenciamos a
verdade
Fomos a Oriente buscar o tesouro, mas regressamos
com a podridão e a miséria moral na alma e, na
viagem, engalanámos as nossas naus e cidades como
mulheres bandeira, que exibimos hoje a turistas
como as novas Babilónias, mas essa glória morre na
impotência quotidiana com que nos tornamos numa
colónia exótica e triste do mundo, sem futuro à vista
Inventámos povos e Continentes, Brasis e Áfricas que
já existiam, inventámos a genealogia da mentira e
escutamos, embebecidos, como crianças tontas que
ouvem, extasiadas, uma lengalenga imperial que se
esfuma ao ser contada, adormecendo no sono da
letargia
E aguardamos, como sempre, que alguém, um homem
providencial de tez branca e ciciar lento ou a deusa
Europa nos alimentem a vida e a ilusão da eterna
infância
A nossa pátria, e essa é a verdade, é o hino do silêncio e
da impotência,
o resto é mito
Somos saudade e nada
Saudade e nada…
Saudade e nada …

Rui Marques was born on January 22, 1975, in Vila Nova de Gaia, Portugal. He spent his childhood and youth in Melgaço, where he lived with his parents in the family home until reaching adulthood. Surrounded by nature and driven by a love of freedom and artistic creation, he began writing prose and poetry at an early age.
He holds a degree in Journalism and a postgraduate qualification in Information and Library Science. Since the 1990s, he has lived in Porto, where he has worked in journalism, publishing, and librarianship.
His first poetry collection, Poemas (Des) Confinados, was published by Poesia Fã Clube in 2021. The book emerged during the COVID-19 pandemic, reflecting the extraordinary circumstances that shaped that period. His second book, Porto: Um roteiro sentimental, published by Edições Esgotadas, is a love letter to the city that welcomed him in his youth and adult life. It offers a deeply personal journey through Porto’s most significant places and personalities while expressing the author’s gratitude for the experiences that have shaped him there.
Over the years, he has also written several short stories published in the digital literary magazine Lavra and has participated in multiple editions of the FNAC Short Story Awards. His third poetry collection, O Poeta em construção, published by Poética Edições in 2026, is a first-person account of the ongoing process of individual construction and reconstruction in relation to the world. It explores the transformative power of poetic imagination to reshape the raw materials of life and elevate human existence to a sublime and transcendent dimension.
